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Acesso ao ensino superior aumentou, mas para especialistas, passos foram lentos

21/10/2009

No primeiro dia do seminário "Ensino a Distância e Banco de Dados sobre o Ensino Superior", realizado na última terça-feira (19), a discussão foi intensa. No período da tarde, sob a coordenação do professor Hélio Cruz, as professoras e pesquisadoras do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NUPPS) da Universidade de São Paulo (USP), Elisabeth Balbachevsky e Eunice Durham, falaram sobre as reformas do ensino superior, experiências internacionais e indicadores do ensino superior paulista, respectivamente.

Em uma análise focada na sua formação de ciências sociais, Elisabeth tratou do impacto do acesso ao ensino superior que, no início dos anos 60, atingia de 2 a 5% da população de 18 a 24 anos e, hoje, atinge 25,2%, de acordo com dados da UNESCO de 2006. A dificuldade histórica de ascensão à universidade faz com que, hoje, boa parte dos estudantes que chegam ao ensino superior componham a primeira geração na universidade da sua respectiva família.. "Historicamente, a educação superior sempre atingiu a elite e não a massa" acrescenta.

Elisabeth identifica três modelos de políticas de ensino superior em diversos países: O primeiro modelo focado na expansão de vagas e acesso ao ensino superior, o segundo modelo focado na política de ensino superior para inserção econômica na área de pesquisa e formação para o mercado de trabalho e o terceiro modelo que mescla os dois primeiros componentes. Na China, o ambiente universitário é permeável às demandas da economia. Na América Latina, de acordo com a especialista, prevalece o primeiro modelo de políticas de acesso ao ensino superior. "São políticas de indução da expansão da graduação com políticas de financiamento de pesquisa fortemente dependente da chamada demanda social", afirma.

Duas abordagens relevantes, no campo da reforma em ensino superior, foram citadas. O primeiro caso traz como exemplo países como Alemanha, Coréia do Sul e Japão, que iniciaram processos radicais de reforma, com um relacionamento estreito entre os Estados e instituições. Elisabeth defende que um modelo de política induz a diferenciação e diversificação da demanda por ensino superior.

O segundo exemplo é a Holanda, onde as universidades foram transformadas em organizações sociais e a escolha das autoridades, como o reitor, é feita por meio de um processo de consulta que fica na mão do conselho deliberativo. As políticas de financiamento se tornam mais estratégicas e direcionadas para promover alianças entre as universidades e os parceiros externos.

"Perdendo o bonde"
A professora da USP, Eunice Durham, que apresentou indicadores sobre o ensino superior e em comparativo com outros países, dispara: "Tenho a sensação de que estamos perdendo o bonde da história". Para ela, o Brasil tem grandes e reconhecidas universidades, mas o aumento da população que tem acesso ao ensino superior público ainda é restrito: de acordo com dados da UNESCO de 2006 apresentados pela especialista, apenas 25,2% da população em idade de 18 a 24 anos está matriculada no ensino superior no país. Na Grécia, por exemplo, o percentual é de 94,9% e na Finlândia de 93,2%. "Se comparado com o resto do mundo estamos numa posição desvantajosa", analisa Eunice.

Os dados referentes à proporção de pessoas de 18 a 24 anos que frequentam o ensino superior relacionada à distribuição da população, segundo faixa de renda familiar per capita em salários mínimos no Brasil, também foram apresentados. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2006, 46,8% dos matriculados no ensino superior tinham uma renda familiar igual ou superior a cinco salários mínimos.  Aqueles com renda de dois a três salários mínimos correspondiam a 33,3% dos matriculados.

Por Erica Guimarães.