Entrevistas

Arlei Sander Damo

O antropólogo Arlei Sander Damo fala sobre inclusão social no país do futebol

Por Márcia Tait
Arlei Sander Damo

Arlei Sander Damo é doutor em antropologia, com diversos trabalhos publicados na área de sociologia do esporte. É professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e autor dos livros: "Do dom à Profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França" e "Futebol e Identidade Social".

“O que promove a inclusão social, não nos enganemos a respeito, são os anos passados na escola, a qualidade da educação recebida, o acesso a oportunidades na universidade e no mercado de trabalho (bolsas, estágios e outros incentivos), certos direitos conferidos a pessoas portadoras de necessidades especiais, salário justo e assim por diante”.

“O esporte pode ser um elemento auxiliar neste processo, mas também pode reforçar a exclusão”

O Brasil é mundialmente conhecido como país do futebol. Para além do bom desempenho de nossos jogadores neste esporte, que justifica esse título, como o senhor vê as iniciativas dos governos brasileiros e as políticas públicas destinadas ao esporte e futebol? O país do futebol leva a serio o esporte em termos de políticas públicas?

Arlei Damo: Quando se trata de discutir a questão das políticas públicas destinadas à promoção esportiva é fundamental marcar uma diferença entre o esporte voltado para o espetáculo, que é aquele associado aos grandes eventos, ao profissionalismo e as mídias, e o esporte praticado no tempo e no espaço do lazer. O esporte de espetáculo - incluindo-se parte do futebol, portanto - não deveria ser alvo das políticas públicas, exceto em caso muito específicos. Este esporte é praticado, organizado e promovido por profissionais, tendo em vista um público que, além de espectador, é consumidor. Trata-se, portanto, de uma relação com forte componente comercial – embora seja de um tipo peculiar – e o Estado deve se fazer presente da mesma forma que atua em outras modalidades de negócio, salvas as especificidades.

Uma Copa do Mundo de futebol, por exemplo, é um evento que pertence à Federação Internacional de Futebol (FIFA). É ela quem planeja a competição, quem negocia as transmissões, paga os cachês às seleções e não presta conta a quem quer que seja, quando muito ao fisco suíço, onde é sediada. Se o lucro é privado, então os investimentos também deveriam ser. É claro que um país sede pode explorar comercialmente esses megaeventos para outras finalidades, como o turismo. Mas há muito cálculo fantasioso em torno disso; quase sempre hipertrofiando o retorno. No último Panamericano, realizado no Rio de Janeiro, em 2007, o Governo Federal teve que multiplicar em muitas vezes o orçamento inicial, sob o risco das obras não serem concluídas. Sabe-se dos gastos, mas não se tem notícia dos ganhos. Aumentou a frequentação de turistas ao Rio por conta do Pan? Houve uma melhora significativa dos serviços – metrô, saneamento, saúde, etc? Então, acho que não há muito seriedade em relação a este assunto, mas não se trata apenas de culpar os políticos ou o governo. A mídia esportiva raramente problematiza estas questões e a própria população se mantém à margem do debate. Todos somos um pouco (ou muito) superficiais a este respeito.

Outra coisa é falar em políticas públicas voltadas à prática esportiva da população em geral. É nesta perspectiva que o Estado deveria investir, e de fato o faz, mesmo que seja de forma desordenada, como é o caso da construção de ginásios de esportes e campos de futebol por políticos interesseiros. Mas nem tudo é ruim neste aspecto. Na minha cidade, Porto Alegre, apenas para dar um exemplo, houve muitos avanços nesta área. A própria população, através do Orçamento Participativo, pode demandar obras como a iluminação de campos de várzea, a construção e reforma de centros de convivência nos bairros periféricos – Porto Alegre tem pelo menos meia dúzia de piscinas freqüentadas pela população carente -, entre muitos programas visando oferecer à população menos favorecida a oportunidade que as classes médias e altas encontram nos clubes, academias e outros espaços cuja frequentação é paga. O Brasil ainda tem muito que avançar nesta área, certamente - assim como em educação, saúde, saneamento, etc. De qualquer forma, não se deve atrelar os investimentos em lazer, que devem ser diversificados e extensivos às mais diversas categorias de cidadãos – incluindo-se crianças, idosos, deficientes e assim por diante -, ao recrutamento e seleção de talentos para o esporte profissional. Infelizmente, no entanto, é assim que pensam muitos políticos e jornalistas que opinam cotidianamente.

O futebol tem uma forte presença no imaginário nacional, principalmente dos jovens, o senhor acredita que o esporte e o futebol são importantes para o desenvolvimento dos jovens, em que aspectos?

Arlei Damo: Os esportes sempre foram usados pelas instituições escolares como um importante mecanismo de disciplinamento dos corpos. O sociólogo francês Pierre Bourdieu fez uma frase que a mim me parece lapidar a este respeito. Disse mais ou menos o seguinte: o esporte é muito bem visto pelas classes altas, mas não porque ele desenvolve o gosto pela competição e pela vitória, que seriam características da maneira de ser desses grupos, antes porque ensina a banalizar as derrotas.

Seja como for, os colégios de elite foram os grandes responsáveis, ainda no século XIX, pelo regramento e difusão dos esportes praticados na atualidade. Eles só foram admitidos nos colégios tradicionais porque os pedagogos de então avaliaram que os ganhos eram fabulosos. Os esportes possibilitavam a canalização da violência, direcionando o consumo de energias perniciosas para uma atividade sem maiores conseqüências práticas, com isso eram poupados os mestres e, sobretudo, a própria instituição. Ainda hoje o recreio e as aulas de educação física cumprem, em parte, esta função. Não há colégio de elite sem um pátio amplo e bons equipamentos esportivos. O mesmo não pode ser dito dos colégios públicos, embora no Brasil o espaço ainda seja relativamente abundante, de tal modo que, aqui e ali, ainda existem terrenos baldios ou espaços públicos onde se pode brincar, correr, saltar, jogar e assim por diante. Enfim, os esportes podem ser úteis para muitos fins, dependendo do modo como eles serão estrategicamente manipulados, seja pela instituição, pelos pedagogos e mesmo pelos praticantes, sobretudo quando a prática é realizada à certa distância dos espaços formais.

Qual a importância do futebol para a formação do imaginário social, a sociabilidade e na própria construção de identidades culturais?

Arlei Damo: Em relação ao imaginário, que é um tema bastante complexo para ser abordado em tão pouco espaço, diria apenas que os esportistas bem-sucedidos, em especial os futebolistas, são uma referência importante para crianças e adolescentes. Por um lado, eles são celebridades midiáticas, e nos dias atuais qualquer celebridade tem boas chances de ser tomada como referência, até mesmo um vencedor do Big Brother ou apresentador do Pânico na TV.

Agora, os jogadores de futebol são especialmente valorizados por meninos de classes populares. No livro “Do dom à profissão” apresento uma pesquisa, realizada em diferentes escolas, mostrando como existe uma percepção diferenciada de acordo com a clivagem de classe social. Quando suscitados a responder se os jogadores são bonitos ou feios e inteligentes ou burros, meninas e meninos de grupos populares tendem a responder que eles são bonitos e inteligentes, enquanto os de classes mais abastadas pensam o inverso. O dado é esclarecedor, mostrando que os jogadores, em sua maioria egressos dos grupos populares, tendem a ser mais valorizados neste meio. Diria, então, que os esportistas são referência apenas para certos segmentos da população, e alguns futebolistas podem até romper a barreira de classe, pois o futebol tem um componente de masculinidade muito acentuado. Mas dificilmente uma mulher dirá que Pelé é uma referência para as meninas. E é bom que seja assim. Essa coisa de dizer que nos falta referências esportivas importantes é conversa de quem quer promover o esporte a fórceps.

Em que níveis o esporte pode estar relacionado com a questão da inclusão social? Que relações e dimensões podem ser apontadas, em sua opinião, entre a prática de esporte e a inclusão?

Arlei Damo: Há muito marketing em torno desta questão. O que promove a inclusão social, não nos enganemos a respeito, são os anos passados na escola, a qualidade da educação recebida, o acesso a oportunidades na universidade e no mercado de trabalho (bolsas, estágios e outros incentivos), certos direitos conferidos a pessoas portadoras de necessidades especiais, salário justo e assim por diante. O esporte pode ser um elemento auxiliar neste processo, mas também pode reforçar a exclusão. Sobretudo o esporte de espetáculo, que exige peformances ao alcance de uns poucos, é mais excludente do que inclusivo.

O que é grave, nos tempos atuais, é a quantidade de pessoas se valendo da idéia de que o esporte promove a inclusão para fazer parcerias com o poder público – com vista à ocupação de espaços e equipamentos – para realizar seleção de jovens talentos. Isso é muito comum no caso do futebol, em que as tais de escolinhas são usadas, na maioria das vezes, como um viveiro a partir do qual um ou outro menino que se destaca é encaminhado – em certos casos comercializado – com os clubes de futebol profissional. Claro que também existem os projetos consequentes, realizados por órgãos públicos, ONGs e mesmo agências privadas, mas há muitos espertalhões nesse meio. Então é preciso cautela em relação a esta questão, pois apenas alguns dos projetos que prometem a inclusão social através do esporte efetivamente a promovem. Alguns não alcançam seus objetivos por questão de competência – pois não é algo fácil de promover a inclusão. Outros porque de fato não tem tal pretensão, usando a inclusão apenas como fachada.

O que tem apontado os estudos sobre as possibilidades de mobilidade social e econômica proporcionadas pelo esporte, especificamente pelo futebol?

Arlei Damo: As possibilidades existem, mas são para poucos. Nos últimos tempos tem aumentado, com a circulação de jogadores em escala transnacional. Há os que conseguem amealhar fortuna, como aqueles que jogam nos clubes de ponta da “Hollywood do futebol” (Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha e França). Outros conseguem acumular o suficiente para iniciar um negócio depois de encerrada a carreira, mantendo um padrão de classe média. E assim vão decrescendo as possibilidades, pois a carreira esportiva em geral é breve e de difícil reconversão. De fato, a maioria dos jogadores que atuam profissionalmente recebem salários baixos, não têm assistência médica adequada para tratar das lesões e passam boa parte do ano desempregados ou sub-empregados. Na grande mídia, cujo foco são os campeonatos de ponta, esta realidade raramente é discutida, mas ela faz parte do cotidiano de muitos futebolistas. Sob certo aspecto, portanto, há uma grande ilusão em relação à mobilidade econômica através do futebol.

O mesmo vale em relação à mobilidade social, pois os jogadores em geral são vistos de forma preconceituosa. Eles são recrutados entre as classes populares, boa parte são negros ou mulatos, gostam de pagode e nem sempre se expressam com desenvoltura (afinal tiveram que abandonar a escola para seguir a carreira). Assim, são frequentemente ridicularizados pelas quase médias, sobretudo as mais intelectualizadas. Enfim, tanto a mobilidade econômica quanto a social são mais remotas do que seguidamente se propagandeia.

Painel pré-Univesp Cadastre-se

Cadastre-se e crie seu próprio arquivo de textos

Esqueceu sua senha?
Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo - Rua Bela Cintra, 847 - 8º andar - Consolação - CEP 01415-903 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3218-5925