Reportagens
Pra frente Brasil! Copa do mundo e ditadura no Brasil
Por Patrícia Mariuzzo
Noventa milhões em ação. Pra frente Brasil. Salve a seleção! Este foi o hino que embalou a campanha da seleção brasileira, tri-campeã da Copa de 70 que aconteceu no México [ver infográfico]. Os versos rimam seleção com coração e emoção, também remetem a um “Brasil grande e forte” que se moderniza, que vai para frente, com todos juntos, sem diferenças de classe, de raça ou de ideologia. Trata-se de uma peça publicitária que usa uma paixão nacional, o futebol, para fazer propaganda política. Assim como no esporte, com disciplina e amor à camisa, os brasileiros deveriam se unir pelo progresso, em uma “corrente pra frente” que apaga o passado e celebra o presente e o futuro. O que há, entretanto, por trás dessa mensagem que circulou no auge da ditadura, nos chamados “anos de chumbo” da ditadura militar que vão de 1968 a 1974?
A operação que utiliza a seleção brasileira para fazer propaganda política só é possível porque o futebol é um meio pelo qual constituímos nossa identidade, nossa brasilidade. Segundo o pesquisador Fernando Gonçalves Bittencourt, professor do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), através do futebol é possível acompanhar o processo pelo qual nos constituímos, durante o século XX, como nação de várias raças. “A identidade está amparada em um sistema de práticas e símbolos que operamos em contextos específicos. Diversos modos de ser ajudam a formar um quadro instável do que é ser brasileiro. Com o carnaval, o samba, a alegria, a cachaça e futebol somos identificados e nos identificamos como brasileiros”, diz ele.
O professor da história da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luiz Carlos Ribeiro explica que a ideia do futebol como identidade nacional brasileira foi construída nos anos 1930/40, no mesmo momento em que foi construído o conceito da “mestiçagem”. Segundo ele, um dos expoentes desse pensamento foi o sociólogo Gilberto Freyre que trabalhou com o conceito do mulato como a síntese do homem brasileiro. O jeito mulato era o responsável pelo sucesso brasileiro no futebol, um esporte democrático, que qualquer homem poderia jogar.
Gilberto Freyre, (1900—1987), sociólogo e antropólogo, foi um dos grandes nomes da história do Brasil. É criador do controverso conceito da "Democracia Racial" brasileira, expresso na sua obra mais conhecida: Casa Grande e Senzala (1933)
Getúlio Vargas – presidente do Brasil entre 1930 e 1945 – apropriou-se da amálgama de “homem brasileiro” para o seu projeto nacionalista. “Nesse percurso dois elementos vieram reforçar esse imaginário. Inicialmente lançou-se mão da análise freyreana de Mario Rodrigues no livro O negro no futebol brasileiro, cuja primeira edição é de 1947. Associado ao discurso do próprio Freyre e às crônicas de Nelson Rodrigues (entre outros), O negro no futebol brasileiro foi alçado a paradigma explicador da nossa eficácia esportiva, sobretudo a partir da sua segunda edição (1962) e após a conquista de duas Copas do Mundo (1958 e 1962)”, afirma Ribeiro.
As Copas do Mundo se transformam então, para os brasileiros, em um ritual em que se coloca em jogo a nossa brasilidade em relação ao mundo. Não é á toa que o Brasil para por causa da Copa. Para Bittencourt, esse parar é muito significativo. É a explicitação de uma característica mítica. “Os mitos são narrativas fora do tempo, encerram um suspensão do cotidiano”, explica ele. “Tomada como um ritual, a Copa do Mundo realiza com êxito a tarefa cíclica de recontar, através de suas narrativas míticas e performances, a nossa história”, completa. Nas Copas nossa brasilidade pode ser atualizada e confirmada.
O futebol e a união nacional
Embora o projeto intelectual e político de associar a imagem do Brasil e do homem brasileiro às vitórias da seleção de futebol nas Copas do Mundo seja anterior ao regime autoritário dos anos 60 e 70, a ditadura opera este movimento de forma mais orgânica e planejada, incluindo a disponibilização de recursos e a indicação de dirigentes de futebol. O pesquisador Gilson Pinto Gil, professor na Escola Superior de Ciências Sociais, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e estudioso do imaginário do futebol, explica que o estímulo político-institucional por parte do governo e de suas agências de propaganda tinha o objetivo de mostrar como se poderia chegar ao padrão de evolução e preparo dos países europeus. “Para a Copa de 1970 surgem comissões técnicas de preparadores físicos, muitos saídos de escolas militares”, conta. A vitória restaurou a confiança e o ufanismo. “Instalou-se a ideia de um Brasil que ‘ninguém poderia segurar’, pois teríamos conseguido unir a arte ao único recurso dos europeus, a força, tornando-nos invencíveis”, descreve Gilson Pinto Gil.
O que o regime militar esperava com isso: legitimação. “Qualquer regime político precisa de reconhecimento e legitimação, mesmo os autoritários. Nesse caso, não basta o uso da violência. É preciso também eficácia e persuasão. Identificar o regime com a nação, fundir o governo com a pátria, exigia agregar símbolos que legitimassem a associação pretendida”, afirma Ribeiro. “É nesse contexto que é feita a ligação da imagem do regime à paixão esportiva e às vitórias do Brasil nos campos internacionais. O objetivo é transformar esses feitos vitoriosos do homem brasileiro na imagem do regime, e o futebol – como qualquer atividade lúdico-cultural – tem a força da emoção, do envolvimento”, completa o pesquisador.
Ditadura e progresso
O esforço dos ideólogos do regime militar era, de forma subliminar, associar a imagem do Brasil à de um povo ordeiro, civilizado e vencedor. Ou seja, um povo pacífico, avesso a conflitos de ordem religiosa, racial ou mesmo social. Por isso a preocupação de disciplinar (leia-se “civilizar”) o atleta brasileiro que saía para representar o Brasil no estrangeiro.
“Mas é preciso ficar claro que não era um discurso isolado esse da modernização. Houve modernização tecnológica, como os investimentos em comunicação, transporte e mesmo em ciência e tecnologia. Afinal o regime ganhou legitimidade entre setores intelectuais e de classe média, graças ao crescimento econômico que a associação com o grande capital internacional possibilitou. Pelo menos enquanto essa aliança foi eficaz, entre os anos 1968 e 1975”, lembra Luiz Ribeiro, da UFPR. Este período, que ficou conhecido como os “anos de chumbo”, também foi chamado de “milagre brasileiro”, em que às alegrias da copa do Mundo de 1970, vistas pela primeira vez ao vivo em cores pelos aparelhos de TV (muitos deles compradas com subsídios do governo), se somavam inéditas taxas de crescimento e um regime de pleno emprego.
O jornalista Elio Gaspari, no livro A ditadura escancarada, conta que o Brasil vivia um ciclo de crescimento econômico nunca antes visto. Em 1969, um ano depois da edição do Ato Institucional nº 5, ou AI-5, instrumento que deu ao regime e ao presidente Emílio Médici poderes absolutos e cuja primeira consequência foi o fechamento do Congresso Nacional por quase um ano, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento de 9,5% (em termos de comparação: em 2009, o PIB brasileiro teve uma desaceleração de 0,2%). Na época, o Brasil se tornou a décima economia do mundo. Segundo Elio Gaspari, a oposição se via diante de um governo que oferecia ditadura e progresso. “O século XX terminaria sem que o país passasse por semelhante período de prosperidade”, afirma ele.
Tão ou mais forte que a marca da prosperidade, os “anos de chumbo” foram marcados pela repressão a todos os movimentos contrários ao governo militar. “um regime anárquico nos quartéis e violento nas prisões”, de acordo com Elio Gaspari. Assim, durante o governo do presidente-general Emílio Garrastazu Médici, enquanto o Brasil era hipnotizado pelas imagens da seleção no México, os meios de comunicação sofriam forte censura, presos políticos eram torturados, mortos, exilados ou simplesmente desapareciam. Um filme que retrata esse cenário é Pra frente Brasil (1983), direção de Roberto Farias. Na história um pacato cidadão da classe média é confundido com um ativista político, sendo então preso e torturado por agentes federais. Na época a censura exigiu um prólogo dizendo que o filme era uma obra de ficção, mas não era.
Áudio: Pra frente Brasil – música
www.youtube.com/watch?v=FY-J_Jv4sFc
Pra Frente Brasil
Composição: Miguel Gustavo
Noventa milhões em ação
Pra frente Brasil
Do meu coração
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil
Salve a Seleção
De repente é aquela corrente pra frente
Parece que todo o Brasil deu a mão
Todos ligados na mesma emoção
Tudo é um só coração!
Todos juntos vamos
Pra frente Brasil, Brasil
Salve a Seleção