• pré-Univesp – No. 9 2011 – Água – Março de 2011
Reportagens

Escassez de água pode levar a conflitos

Os recursos hídricos, ainda que renováveis, são limitados

Por Patrícia Mariuzzo
Escassez de água pode levar a conflitos
15/03/2011

 

Estamos acostumados a pensar na água como um recurso inesgotável. Nada mais falso. Os recursos hídricos, ainda que renováveis, são limitados. Dos 70% da água que compõem o planeta Terra, apenas 2,5% é doce. E mais, dessa porcentagem apenas 0,4% estão em lagos, rios, ou seja, disponíveis para as pessoas usarem. Diante desse cenário a Organização das Nações Unidas, ONU (2006), estima que até 2050 mais de 45% da população mundial não terá acesso a água potável. O alerta das Nações Unidas é corroborado por outro dado: é a primeira vez na história que a maior parte das pessoas está vivendo em cidades. E a população está crescendo mais rápido do que a capacidade de adaptar a infra-estrutura urbana. Foi esse o tema escolhido pela ONU para as comemorações do Dia Internacional da Água, que acontece todos os anos no dia 22 de março: "Água para as cidades: respondendo ao desafio urbano".

O objetivo do Dia Mundial da Água 2011 é chamar a atenção internacional para o impacto do rápido crescimento da população urbana, a industrialização e as incertezas causadas pelas alterações climáticas, conflitos e as catástrofes naturais em sistemas urbanos abastecimento de água. Ao analisar a distribuição de água por país no mapa abaixo nos damos conta da importância de sensibilizar os governos e a sociedade civil para a boa gestão dos recursos hídricos disponíveis no planeta.

 

 

Água e crescimento urbano

O principal evento para marcar o Dia Internacional da Água será realizado este mês na África do Sul, e isso não acontece por acaso. Estimativas indicam que a população urbana dobrará entre 2000 e 2030 no continente africano e na Ásia, o que agravará um problema que já existe em diversos países dessas regiões. Segundo Juliana Cibim, da Sociedade Brasileira de Direito Internacional de Meio Ambiente, uma questão importante a ser considerada quando se fala em falta de água limpa é a localização desta água em relação aos consumidores. "A distribuição não se refere apenas à localização das fontes de água em relação à população que dela necessita. A distribuição está relacionada a questões políticas e a mercantilização da água", disse Juliana. "A falta de água doce de boa qualidade, assim como a questão da distribuição relacionam-se a fatores naturais sim, mas estão mais efetivamente relacionadas à falta de gestão e de governança. Existe a necessidade de mudança dos padrões e critérios de uso e consumo da água", complementa.

E, na falta de um sistema de abastecimento que atenda a todos de maneira igualitária, os pobres são os que sofrem mais, especialmente os que vivem em assentamentos urbanos informais. Muitas famílias são forçadas a comprar água de provedores não-estatais ou de vendedores que cobram entre 20% e 100% a mais pela água do que os preços cobrados por uma concessionária autorizada. A ONU estima que na África Subsaariana entre 30% e 60% da população urbana não está ligada ao sistema público de abastecimento de água, tendo que se sujeitar a pagar preços altíssimos pela água que consome. Alguém que vive em Nairobi, capital do Quênia paga cinco a sete vezes mais por um litro de água do que um cidadão médio norte-americano.

Batalhas pela água

Há evidências crescentes de que o setor da água também será significativamente afetado pelas mudanças no clima, nomeadamente através do impacto das inundações, secas e outros eventos extremos. De acordo com estudos da  UN Water, órgão da ONU que trata de questões relacionadas a água doce e saneamento, são esperadas mudanças tanto em quantidade e qualidade. O aquecimento global e seus efeitos no clima do planeta Terra poderão interromper com maior frequência os serviços de abastecimento, além de aumentar o custo de água e serviços de águas residuais. Muitos países já se preocupam com essas questões e tentam se precaver. Na Dinamarca, por exemplo, o governo aumentou o preço da água na tentativa de diminuir o consumo. "Só isso não basta. Acho muito importante a conscientização da população para o uso racional da água. Não dá mais para lavar a calçada com mangueira. Aqueles que vivem com a escassez da água conseguem saber o verdadeiro valor que esse recurso natural tem para a vida. E não se trata de valor econômico, mas sim do valor intrínseco a ele associado", destaca Juliana que também é pesquisadora de ciência ambiental na USP.

O grande desafio está nos locais onde já existe dificuldade de abastecimento e, em um contexto de mudanças climáticas e crescimento populacional, a escassez de água pode ser a principal motivação para conflitos tanto internos quanto entre países. As fronteiras de 145 países são estabelecidas por 260 bacias hidrográficas. Segundo informações da ONU, pelo menos 21 guerras já aconteceram tendo por motivação disputas por reservas de água. Em 2003 a Unesco publicou um relatório identificando as bacias hidrográficas com potencial de gerar crises políticas ou conflitos de interesse. Entre os locais citados pela Unesco está a bacia do Prata, que pode gerar disputas entre Bolívia, Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil). Alguns locais, no entanto, já assistem conflitos motivados por questões relacionadas à água.

Nove países da África discutem o aproveitamento das águas do Rio Nilo, o segundo maior rio do mundo em extensão. No centro da disputa estão o Egito e o Sudão, países de clima desértico que reivindicam "a utilização plena das águas do Nilo" e tentam impedir projetos de represamento do rio que ameacem os níveis de vazão que chega a seus territórios. Do outro lado da querela estão Uganda, Tanzânia, Ruanda, Quênia, República Democrática do Congo, Burundi e Etiópia, Estados cujos rios abastecem o Nilo e que, mesmo contando com regimes pluviométricos mais generosos, elaboram projetos de irrigação e geração de energia para aproveitar os recursos hídricos que cortam seus territórios.

E o Sudão já é palco para conflitos internos por causa da água, ou da falta dela. Um relatório de 2006 do Council on Foreign Relations, entidade norte-americana voltada a questões de política internacional, descreve que o Conflito de Darfur, território na região oeste do Sudão[1], teve como motivação, além das questões étnicas e religiosas, a tensão entre grupos de fazendeiros nômades que estavam competindo por água e terra para pastagens, recursos cada vez mais escassos devido à expansão do deserto do Saara. As disputas entre os janjawid, que compõe a população nômade e de religião mulçumana e não mulçumanos causaram mais de 400 mil mortes desde 2003, quando começou o conflito. O caso de Darfur não é o primeiro em que a disputa pro água provoca conflitos armados.

Há anos, Israel e Síria disputam as Colinas de Golã, uma área de morros cobertos de gelo, mas que abriga as nascentes do Rio Jordão, fundamental para o abastecimento do Oriente Médio. A menos que sejam tomadas medidas corretivas urgentes, o Oriente Médio pode entrar em crise humanitária de grandes proporções por causa do esgotamento dos recursos hídricos - esta é a principal conclusão do relatório A Paz Azul: repensando a água no Oriente Médio[2], divulgado em fevereiro deste ano pelo Strategic Foresight Group. O documento, elaborado com apoio de agências de cooperação internacional da Suíça e Suécia, traz dados preocupantes sobre a diminuição do volume de água dos rios que cortam a Turquia, Síria, Iraque, Líbano e Jordânia. A reserva de dois aquíferos que abastecem Israel e os territórios palestinos também tem diminuído. A disputa por água é um ingrediente a mais no já explosivo contexto em que a região vive. Em Jerusalém, cidade dividida entre judeus e palestinos, mas com sistema de encanamento unificado, são frequentes as acusações de roubo de água.

 Oportunidades que surgem da crise

O mesmo relatório aponta, no entanto, que a crise da água pode ser também uma excelente oportunidade de fomentar a paz no Oriente Médio. O documento recomenda a criação de um Conselho de Cooperação para a gestão sustentável da água na Turquia, Síria, Jordânia, Líbano e Iraque. Este Conselho permitirá aos países que têm padrões comuns para medir os fluxos de água e de qualidade, desenvolvimento de modelos regionais para combater as alterações climáticas, a disseminação de novas tecnologias e a gestão integrada da água disponível. O Strategic Foresight Group também propõe que Israel e a Autoridade Palestina façam acordos sobre o status dos recursos hídricos e modo de funcionamento de uma Comissão Mista de água. Recomenda igualmente a instalação de usinas descentralizadas nos territórios da Palestina para tratamento de águas residuais.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que, para satisfazer às necessidades básicas de uma pessoa, são necessários de 30 a 50 litros de água por dia. Contudo, em muitos países parte da população tem à disposição menos de dez litros. Segundo dados da UN Water, 27% da população urbana dos países em desenvolvimento não tem acesso à água encanada em sua residência. Melhorar este quadro depende substancialmente da boa gestão dos recursos disponíveis. E, se a escassez de água se configura como um desafio do futuro, a gestão da água é um problema para ser enfrentado hoje. 

 


Água de beber?

Além da importância de fornecer água de qualidade para atender as necessidades básicas
da população, toda atividade industrial e agrícola depende desse recurso. De toda água que consumimos apenas 10% destina-se para uso humano. 70% vai para a agricultura e 20% é
utilizada pela indústria. Portanto, os impactos econômicos da escassez de água podem ser
mais graves do que os da falta de petróleo. Dados reunidos pelo jornalista Roberto Haushahn,
que estuda esse tema na Universidade Metodista de São Paulo, indicam que para fabricar um
quilo de aço são necessários 600 litros de água; um litro de cerveja usa de três a quatro litros;
a fabricação de uma calça jeans consome até 11 mil litros de água e um hambúrguer precisa
de mais de 2,4 mil litros do líquido para ser produzido, segundo a organização britânica
Waterwise. Além isso, a maior fonte de degradação de água do planeta é o uso intensivo em sistemas produtivos industriais e agrícolas e a devolução dessa água ao ambiente sem
tratamento, de acordo com Wagner Costa Ribeiro, autor do livro Geografia política da
água
(2003).


 

Saiba mais:

Site do Dia Internacional da Água: www.unwater.org/worldwaterday

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria Nacional de Recursos Hídricos. Glossário de Termos referentes à gestão de recursos hídricos fronteiriços e transfronteiriços. Brasília, 2006. Disponível em: http://arquivos.ana.gov.br/institucional/sge/CEDOC/Catalogo/2006/GlossarioDeTermo.pdf.

CLARKE, R. e KING, J. O Atlas da água: o mapeamento completo do recurso mais precioso do planeta. Publifolha: São Paulo. 2004.

RIBEIRO, Wagner Costa. Geografia política da água. Editora Annablume, 2003.

PORTO, M. F. A. e PORTO, R. L. L. Gestão de Bacias Hidrográficas. Estudos Avançados, vol. 22, n° 63, 2008, p. 43-60.

UNESCO. Water for people. Disponível em: www.unesco.org/water/wwap/wwdr/table_contents.shtml.

WOLF, A. T., YOFFE, S. B. e GIORDANO, M. International waters identifying basins at risk. UNESCO: 2003. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001333/133306e.pdf.

WORLD WATER ONG. Water Conflict Chronology Timeline List. Disponível em: www.worldwater.org/conflict/list,

WORLD WILD FUND - WWF. World's top 10 rivers at risk. WWF: 2007. Disponível em www.wwf.org.

 

Foto: www.pordarfur.org/pt

 


[1] Em janeiro deste ano, em um referendo, a população do Sudão optou pela separação do território do Sudão em dois países. Assim foi criado o mais novo pais africano, o Sudão do Sul. A região de Darfur pertence ao Sudão.

[2] Em inglês: The Blue Peace: Rethinking Middle East Water.

 

Painel pré-Univesp Cadastre-se

Cadastre-se e crie seu próprio arquivo de textos

Esqueceu sua senha?
Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo - Rua Bela Cintra, 847 - 8º andar - Consolação - CEP 01415-903 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3218-5694