• pré-Univesp – No. 10 2011 – Espaço – Abril de 2011
Artigos

A astronomia no Brasil

Professor do IAG-USP fala sobre o crescimento da pesquisa em astronomia nas últimas décadas, especialmente com a entrada em operação de telescópios e radiotelescópios

Por João Steiner *
A astronomia no Brasil
15/04/2011


A Astronomia brasileira, enquanto ciência institucionalizada e produtiva, é uma atividade recente. Ela se desenvolveu a partir da implantação da pós-graduação, no início da década de 1970. Apesar disso, houve iniciativas muito anteriores: o primeiro observatório astronômico instalado no Brasil, na verdade o primeiro no Hemisfério Sul, ocorreu em 1639, no Palácio Friburgo, Recife, pelo astrônomo holandês Georg Markgraf (1616-1644). É notável que isso tenha acontecido apenas 30 anos após Galileu ter apontado a sua luneta para o céu. Esse observatório foi destruído em 1643, durante a expulsão holandesa. Mais tarde, os jesuítas instalaram um observatório no Morro do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro, em 1730.

Em 15 de outubro de 1827, alguns anos após a declaração da Independência, foi assinado por D. Pedro I ato de criação do Imperial Observatório do Rio de Janeiro. Com a Proclamação da República, ele passou a ser denominado Observatório do Rio de Janeiro e, décadas mais tarde, Observatório Nacional. Trata-se, pois, de uma das mais antigas instituições científicas brasileiras. Curiosamente, a primeira esposa de D. Pedro I, a imperatriz Leopoldina era astrônoma amadora, gosto que seu filho D. Pedro II herdou-lhe. Ambos eram dedicados ao estudo das ciências, e a Astronomia era, para D. Pedro II, a predileta das ciências. Consta que, entre os planos não realizados no seu longo reinado, estavam a construção de um “moderno observatório astronômico e duas universidades”.

No início do século XX, foram construídos observatórios em Porto Alegre e em São Paulo mas, somente nas décadas de 1960 e de 1970, com a construção de um telescópio de 60 cm no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, e a instalação de telescópios de 50-60 cm, em Belo Horizonte, Porto Alegre e Valinhos, começaram realmente as pesquisas em Astrofísica no país. Nessa época, chegaram os três primeiros doutores em Astronomia, formados no exterior, que participaram da instalação dos programas de pós-graduação no país.

Paralelamente, começou a construção do Observatório do Pico dos Dias (localizado entre os municípios sul-mineiros de Brazópolis e Piranguçu), no qual foi inaugurado, em 1981, o telescópio de 1,60 m, cuja operação ficou sob a responsabilidade do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), criado em 1985. Esse foi, de fato, o primeiro laboratório nacional criado no Brasil.

A operação desse laboratório nacional procurou seguir as melhores práticas internacionais na gestão e utilização dos seus equipamentos. Com isso, a comunidade astronômica se desenvolveu, podendo dar um passo além, com a entrada no Consórcio Gemini em 1993, e formando o Consórcio SOAR em 1998 (ver mais sobre os consórcios adiante).

Ainda, em 1974 foi instalado em Atibaia, SP, o radiotelescópio para ondas milimétricas com diâmetro de 13,4 m. Nele foram feitas as principais pesquisas em radioastronomia no Brasil até hoje.

Pesquisa e pós-graduação

A pós-graduação teve um papel importante no sentido de impulsionar a formação de novos mestres e doutores no país. Em 1981, o Brasil já contava com 41 doutores em Astronomia. Hoje existem 234 doutores empregados em 40 instituições, além de 60 pós-doutores. Algumas instituições são bastante amplas enquanto que a maioria delas conta com apenas um ou dois profissionais.

Com o início da pós-graduação, a produção científica brasileira, na área da Astronomia, também teve um grande desenvolvimento. Em 1965, ela praticamente não existia, no sentido de que não há registro de trabalho cientifico publicado em revista indexada. No ano de 1970, já havia oito artigos publicados. Nas três décadas seguintes, a taxa média de crescimento anual dos artigos publicados foi de 11,1%.  Já, entre os anos de 2000 e 2008, essa taxa foi bem menor: de aproximadamente 1%.

Os maiores grupos de pesquisa em Astronomia estão concentrados na Universidade de São Paulo (USP) e nas universidades federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Rio Grande do Norte (UFRN), assim como nos institutos do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) – Observatório Nacional e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Todos eles mantêm programas de pós-graduação em nível de mestrado e doutorado. No entanto, outros grupos menores também participam de programas de pós-graduação, quase sempre em conjunto com os de Física. São no total 16 programas que oferecem mestrado e 12 doutorado em Astronomia.

As principais áreas de pesquisa são Astronomia Estelar (óptica e infravermelha), que produz 30%; Cosmologia Teórica, com 17%; e Astronomia Extragaláctica, com 13% dos artigos publicados em 2008. Algumas áreas tiveram desenvolvimento mais recentemente, como Física de Asteroides (6%) e de Exoplanetas (3%).

No Brasil, a grande maioria dos pesquisadores das áreas de Astronomia e Astrofísica fizeram bacharelado em Física e depois mestrado e doutorado em Astronomia. A UFRJ oferece curso de graduação em Astronomia há mais de 50 anos. A USP iniciou habilitação em Astronomia junto ao bacharelado em Física em 1997 e um bacharelado específico em 2009.

No âmbito da pós-graduação em Astronomia, os primeiros cursos foram do ITA, da Universidade Presbiteriana Mackenzie e do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, entre 1969 e 1971, seguidos da UFRGS e, mais tarde, do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro; da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da UFRN. Atualmente, 14 programas já forneceram titulação, e novos programas estão iniciando.

A criação do Laboratório Nacional de Astrofísica consolidou a Astronomia Observacional no Brasil, dando apoio aos programas de pós-graduação e desenvolvendo instrumentos de observação. Com isso, o país se credenciou para integrar um consórcio internacional – formado pelos Estados Unidos (50%), Inglaterra (25%), Canadá (15%), Austrália (5%), Argentina (2,5%) e Brasil (2,5%) – para construir e operar dois telescópios de 8 m: os Gemini. Eles foram instalados no Havaí e no Chile. Esse consórcio foi constituído em 1993, e os primeiros artigos saíram em 2000. A participação brasileira no Gemini tem sido bem-sucedida, estando a nossa nação entre os parceiros mais produtivos e de maior impacto.

Em 1998, foi instituído outro consórcio, para construir e operar um telescópio de 4,1 metros: o Telescópio SOAR (SOuthern Telescope for Astrophysical Research). Os parceiros são MCT (34%) e as instituições americanas NOAO (33%), UNC (16%) e MSU (14%). Este telescópio ainda está comissionando alguns instrumentos, não estando, assim, em ritmo de cruzeiro.

Do ponto de vista do Brasil, já podemos dizer que o SOAR viabilizou nossa capacitação de construir instrumentos de classe mundial. É o único país em desenvolvimento que tem acesso a telescópios de 8 m e 4 m e um dos poucos países no mundo com acesso a esse tamanho de telescópios em ambos os Hemisférios. Essa situação privilegiada foi alcançada com um investimento de US$ 30 milhões nos últimos 17 anos. Esta é, provavelmente, uma das melhores relações custo/benefício de qualquer Astronomia nacional do mundo.

* João Steiner é professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP)

Painel pré-Univesp Cadastre-se

Cadastre-se e crie seu próprio arquivo de textos

Esqueceu sua senha?
Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo - Rua Bela Cintra, 847 - 8º andar - Consolação - CEP 01415-903 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3218-5694