Reportagens
O cérebro nas nuvens
Com o “efeito Google”, saber formular as perguntas corretamente e onde encontrar as informações se tornou mais importante do que saber as respostas
Por Enio Rodrigo
A memória humana precisa cada vez menos guardar informações. Não porque elas são dispensáveis, mas porque o fluxo e a renovação dessas informações estão mais rápidas, tornando quase impossível a atualização constante. Com isso, as tecnologias que nos cercam se tornam depositórios dessas informações - seja a agenda do celular, ou a enciclopédia on line. O grande desafio não é mais guardar informações: é saber onde acessá-las. A memória humana está deixando de ser um grande receptáculo e se tornando um grande indexador. Saber fazer as perguntas de forma correta é mais importante do que saber as respostas. Esse é o chamado "efeito Google", descrito recentemente por Betsy Sparrow, pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade de Colúmbia, nos EUA.
O estudo feito por Sparrow foi publicado na edição de julho de 2011 do periódico Science, uma das revistas científicas mais renomadas mundialmente. De acordo com a investigação, participantes de entrevistas que se viam diante de perguntas difíceis passavam mais tempo pensando em como ter acesso a um computador do que sobre a informação questionada em si.
As pessoas têm acesso constante a tecnologias, e a internet se tornou uma espécie de memória transacional onde a informação é coletiva e guardada fora do indivíduo, afirma Sparrow e colaboradores. "Armazenar informações externamente não é algo exatamente novo, isso já existia mesmo antes do advento dos computadores. Em um relacionamento de longo prazo ou em um ambiente de trabalho em equipe, ou qualquer outro grupo, as pessoas via de regra desenvolvem essa 'memória transacional', ou seja, uma combinação de memórias armazenadas pelos indivíduos em si e uma memória que pode ser acessada quando se sabe quem tem aquela informação. Isso é similar a uma rede de computadores na qual se pode acessar os arquivos uns dos outros", diz o estudo.
"Em computação, há o que chamamos de hierarquia da memória. Quanto mais próximas do processador, essas memórias ficam menores e mais rápidas. O HD é maior e menos eficiente do que a RAM (rapid acess memory), por exemplo, e entre esta e o processador há as memórias 'cache' - muito pequenas, mas muito rápidas", explica Omar Paranaíba Vilela, pesquisador do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A hierarquia da memória humana segue o mesmo caminho, onde nosso cérebro parece ser o grande processador que acessa as informações em bancos de dados na internet, por exemplo.
Do "efeito escrita" ao "efeito calculadora"
O Google e as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) de uma forma geral não são, no entanto, os primeiros a modificar como lembramos (ou acessamos) determinadas informações. Uma das preocupações dos pensadores gregos era como a escrita seria danosa para a memória. "Para Platão e os pensadores gregos clássicos, o homem 'virtuoso' deveria ter uma boa memória. Saber recitar poemas sem recorrer a um manuscrito era uma virtude, ao contrário dos artistas que usavam a concretude dos objetos", conta Vani Moreira Kensky, pesquisadora da área de Educação e professora da Universidade de São Paulo (USP).
Se hoje a arte grega - como afrescos e estátuas - é admirada por nós como um exemplo de beleza, na Grécia Clássica os verdadeiros artistas eram os poetas e sua arte etérea. Os escritos de Platão, por exemplo, jamais tiveram sua mão, mas eram anotados por seus seguidores muitas vezes sem a presença do próprio pensador, apenas recorrendo à memória de suas aulas.
"Hoje não solicitamos tanto a memória quanto faziam os gregos. Naquela época, havia até mesmo a figura do 'memorizador', que deveria guardar a lembrança da história e repassar, de forma oral, para outros indivíduos. Eles eram reticentes a essa tecnologia chamada 'escrita'", esclarece Kensky, que aponta ainda que até pouco tempo atrás os grandes legisladores e advogados eram exigidos por sua memória. "Saber citar as leis de cor era uma obrigação, tanto que havia uma disciplina nas escolas de Direito chamada mnemônica, uma técnica para decorar essas informações."
O mito de que a tecnologia deixa o cérebro mais preguiçoso remonta a discussões sobre o uso da calculadora eletrônica, quando as mesmas se popularizaram nas décadas de 1970 e de 1980. "Não acho que alguém esqueceu de como realizar uma conta matemática simples por causa da calculadora. E, se isso diminuiu a capacidade matemática por um lado, pode ter aumentado outras capacidades da memória de um indivíduo em outras áreas", sugere Rubens Wajnsztejn, pesquisador da área de Neurologia da Faculdade de Medicina da Fundação ABC em São Paulo.
Segundo o especialista, os indivíduos se adaptam ao uso das tecnologias, e diversas são as diferenças entre a memória humana e a do computador. "A nossa memória é vinculada a outros fatores, como a emoção ou as sensações. Somos mais restritos e vagarosos que as máquinas, porém muito mais eficazes. Nós sabemos o que precisamos e determinamos o uso da informação, inserindo-a em contextos maiores e mais complexos. E a principal peça que faz do computador algo importante é justamente o operador, o ser humano", expõe Wajnsztein.
Saber o caminho para a informação
Enquanto o mundo se movimenta, e a velocidade das informações somente tende a aumentar, é preciso tirar proveito das tecnologias. Saber administrar o conhecimento é uma tarefa cada vez mais exigida e, nesse ponto, a "decoreba", ou seja, o ato de guardar uma informação de forma exata e pura, sem relacioná-la com outras informações, perde cada vez mais espaço.
"Fazer remissões, referenciar o conhecimento, é o importante. A desatualização constante permeia todas as áreas. Então é preciso saber onde acessar os espaços das informações de forma rápida, e não recitá-las de memória. Por isso é fundamental, quando falamos de aprendizado, saber ensinar os alunos a articular o conhecimento com aprendizagens anteriores, e não com informações estanques. Eles precisam 'aprender a aprender', ou seja, basicamente aprender a encontrar o que querem e identificar se aquilo é relevante e confiável ou não", indica Kensky.
Além disso, aponta a especialista, determinar o que é passível de esquecimento também é uma habilidade que será cada vez mais requisitada. "A memória precisa de uma direção. Às vezes é necessário guardar determinada informação, outras vezes não. E identificar essa aplicabilidade só se faz através da argumentação - que dá sentidos para aquela informação - e, aí sim, de acordo com a importância daqueles sentidos para aquele indivíduo, ela vai ser incorporada à memória", avalia.
Simbiose entre as memórias
Conforme Sparrow, os resultados de sua pesquisa sugeriram que o processo da memória humana está se adaptando ao advento das novas tecnologias. Da mesma forma que aprendemos através da memória transacional, quem sabe o quê em nossas famílias ou grupos de trabalho, estamos aprendendo também o que está disponível na internet, onde estão as informações e quando devemos acioná-las. Para a pesquisadora americana, passamos por um processo de simbiose com as memórias baseadas em ferramentas computacionais, aumentando nossa interconexão para lembrar menos as informações e mais sobre onde encontrá-las. Isso nos dá a vantagem de acessar uma grande quantidade de informações, apesar da desvantagem da necessidade de estarmos constantemente "plugados" para encontrá-las.
"O que falta ao computador é o processamento que envolva analogias e inferências, mas sobra velocidade nos processamentos sequenciais. E, apesar de não conseguirmos fazer contas de forma tão ágil quanto essas máquinas, as analogias são algo que nosso cérebro faz com muito êxito", pondera Vilela. "Mas é bom lembrar que, quando a memória de um computador é utilizada, ela armazena e recorre às informações mais rapidamente. Pessoas que fazem pouco uso da sua memória e 'terceirizam' tudo através de outros dispositivos podem estar contribuindo para que seu cérebro se acomode. A 'memória Google' provavelmente será melhor aproveitada por aqueles que não se deixarem acomodar e que a usarão para se informar cada vez mais, porém sem se sobrecarregar", finaliza.