Reportagens

TICs: ferramentas de educação e inclusão

Tecnologias têm papel importante no processo de aprendizagem, além de trazer autonomia para pessoas com deficiência

Por Patricia Piacentini
TICs: ferramentas de educação e inclusão
15/09/2011


O uso das tecnologias da comunicação e informação (TICs) tornou-se tão comum nos dias atuais a ponto de ter sido criado um termo para designar os jovens que já nasceram cercados por computador, internet, celulares e que sabem como ninguém tirar proveito de toda essa tecnologia: Geração Z. Amplamente disseminadas, principalmente entre a população jovem, as TICs tornaram-se aliadas também nas escolas. “São recursos estratégicos para a inclusão digital e social, principalmente na educação”, define Márcia Hellen Santos, coordenadora do grupo de trabalho Cultura Digital, da Universidade do Estado do Pará (Uepa). 

Segundo Márcia Santos, o contato – principalmente dos jovens – com computadores, jogos, vídeos, material audiovisual e plataformas colaborativas – despertam competências que são essenciais à vida contemporânea: o pensamento estratégico, o trabalho em equipe e o raciocínio lógico. Além disso, segundo a pesquisadora, o uso das TICs alia a tais competências os conhecimentos do cotidiano favoráveis ao exercício da cidadania, resultando em um indivíduo capacitado técnico-profissionalmente e humanizado. “A exigência de manejo computacional é colocada como pré-requisito para uma significativa gama de empregos e serviços, afinal, mais do que simplesmente ter acesso a computadores, é preciso ter capacidade de operá-los com autonomia”, completa.

Porém, o uso das tecnologias na educação não é tão simples e depende de um projeto bem-estruturado. “As TICs somente contribuem para a inclusão social se estiverem atreladas a um projeto mais amplo, no qual se envolvam governo, sociedade e organizações”, argumenta Ana Cristina Cypriano Pereira, pesquisadora da área de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em educação tecnológica. De acordo com a pesquisadora, é preciso pensar em projetos de inclusão que levem em conta o conteúdo, dando sentido à aprendizagem, ao mesmo tempo em que se preocupem com os interesses que envolvem e motivam os alunos. “Não deve e não pode ser a ferramenta pela ferramenta, que acaba se esvaziando apenas em joguinhos”, alerta.

Autonomia

“Para as pessoas sem deficiência, a tecnologia torna as coisas mais fáceis. Para as pessoas com deficiência, a tecnologia torna as coisas possíveis”, escreveu a estudiosa Mary Pat Radabaugh, que sintetiza o impacto das TICs para pessoas com deficiência. “As TICs são essenciais não só para o aprendizado das pessoas com deficiência, mas também para o trabalho e a vida desses sujeitos. Esses recursos são instrumentos de equidade social à medida que reduzem as diferenças e tornam possível a participação das pessoas com deficiência em diversas esferas da vida social”, defende Ana Cristina. O uso de tecnologia representa também a possibilidade destas pessoas explorarem e demonstrarem seu potencial, aumentando sua autoestima e autonomia.

“Os avanços da informática têm proporcionado recursos valiosos para deficientes, possibilitando mais uma ferramenta de acesso à informação e de apoio no desenvolvimento de atividades educacionais, culturais e sociais”, resume Márcia Santos, destacando a iniciativa do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que disponibiliza gratuitamente um sistema para atender deficientes visuais, o DOSVOX. O sistema proporciona às pessoas cegas utilizarem um computador para desempenhar uma série de tarefas, adquirindo independência no estudo e no trabalho.

Outro exemplo é o Laboratório de Acessibilidade (LAB) da Unicamp, que funciona junto à Biblioteca Central Cesar Lattes (BC-CL) e começou a funcionar em 2003. O LAB permite às pessoas com deficiência um ambiente adequado às suas necessidades educacionais especiais, para que consigam realizar os estudos com maior autonomia. Eles disponibilizam orientação à pesquisa, acesso, localização e obtenção de documentos impressos ou eletrônicos, normalização de trabalhos científicos, empréstimo entre bibliotecas etc. Os computadores do LAB dispõem de softwares leitores de tela (veja infográfico), para a navegação na internet, leitura de textos digitalizados e acesso a todo o conteúdo do Windows. 

Educação a distância

Outro ponto importante quando se trata do uso das TICs para a inclusão na educação é o Educação a Distância (EaD), principalmente quando se pensa na possibilidade de uma formação de nível superior nos lugares mais distantes de centros de ensino (veja reportagem). “Tenho visto e vivido experiências com o uso de TICs muito positivas e que têm trazido excelentes resultados para o aprendizado das pessoas, sendo que a principal delas é a EaD”, afirma Marcelo Marchine Ferreira, professor do Departamento de Ciências Contábeis da Faculdade Estadual e Ciências e Letras de Campo Mourão (Fecilcam). 

“Cursos de graduação oferecidos a distância podem chegar aos mais longínquos lugares onde a universidade, por meio do ensino presencial, demoraria muito a chegar, o que demonstra o seu grande potencial de democratizar o acesso ao ensino superior”, esclarece a pesquisadora Márcia Santos. Na EAD, as TICs possibilitam a interatividade entre formadores, alunos e tutores. A comunicação é facilitada e mais ágil. “Vários recursos podem ser utilizados, entre eles chat, fórum de discussão, web e-mail, diário de bordo, blog, wiki, web conferências etc.”, enumera.

Desafios

O Brasil ainda precisa avançar muito quando se trata das TICs e seu papel de inclusão nas escolas, e uma das ações necessárias é equipar as instituições. Segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com base nos resultados da avaliação internacional Pisa (em português, Programa Internacional de Avaliação de Alunos), as escolas brasileiras oferecem, em média, um computador para cada 6,25 estudantes, ou seja, 0,16 computador por aluno, ficando na terceira pior colocação no ranking da inclusão digital, com resultado melhor apenas que a Tunísia e a Indonésia. 

“Este atraso em relação aos outros países acontece, pois sabemos que, além de ter computadores na escola, é preciso ter também o acesso à internet – o que muitas vezes é precário ou inexistente em várias localidades do Brasil, principalmente na Região Norte. Acredito que são necessárias não somente políticas nacionais para a inclusão digital, mas projetos pedagógicos que contemplem a formação continuada de seus professores”, opina Márcia Santos. Entretanto, a formação do corpo técnico e administrativo, de acordo com a pesquisadora, não é suficiente: “É necessária uma mudança de cultura em relação a como utilizar esses recursos humanos e materiais da melhor maneira”, diz.

Para Ana Cristina, é preciso ter foco na realidade brasileira, pois a pesquisa da OCDE representa, por vezes, a carência de comunidades cujas escolas, infelizmente, têm outras dificuldades muito mais emergentes de infraestrutura. “Para modificar essa situação, é preciso mais investimento não só de recursos financeiros, mas também investimento de planejamento e gestão”, sugere.

A conferência internacional "O impacto das TICs na Educação", realizada em Brasília pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 2010, deixou uma preocupação entre os especialistas do tema: a falta de avaliações que indiquem os impactos das TICs na sala de aula. Há a necessidade de metodologias que possam responder se a tecnologia traz resultados positivos na educação dos alunos.

Marcelo Ferreira aponta que as TICs carregam em si grandes potencialidades que precisam ser mais exploradas e integradas em políticas e projetos educacionais com objetivos claramente estabelecidos e cujos resultados possam ser medidos em termos e eficiência e efetividade. A tecnologia, segundo ele, é importante e deve ser usada nos ambientes educacionais como ferramenta. “Sua inserção em ambientes educacionais como ferramenta exige professores mais bem-preparados para utilizá-la. Aliás, não só professores, mas todos os agentes e atores envolvidos com a escola e os ambientes de aprendizagem”, afirma.

De acordo com Ana Cristina, da UFRGS, muitos estudos sustentam que, além de equipar as escolas e capacitar os professores (veja artigo), o aprendizado através das TICs deve passar também por outros aspectos: precisa ser contextualizado e fazer sentido para os estudantes. “A função social que a tecnologia assume e as mudanças que provoca nas relações sociais também são elementos fundamentais de análise. Para isso, é preciso planejamento, treinamento, atualização constante e um projeto de mudança sustentável, que não se baseie apenas na aquisição de computadores e em números para as estatísticas”, explica. A respeito dos resultados de estudos sobre incrementos tecnológicos e melhoria na educação, Ana Cristina pondera: “considerando a educação como um processo, é preciso tempo para vermos os resultados deste movimento”, finaliza.

 

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