• pré-Univesp – No. 14 2011 – TICs e educação – Setembro de 2011
Entrevistas

Pierre Lévy

As tecnologias de comunicação, mesmo as mais avançadas, não são capazes de construir por si próprias novas formas de saber, afirma filósofo francês

Por Marta Avancini, Fabiano Conte e Flávia Gouveia (em entrevista coletiva)
Pierre Lévy
15/09/2011

As tecnologias de comunicação, mesmo as mais avançadas, não são capazes de construir por si próprias novas formas de saber e de inteligência. Isso porque, seu impacto sobre as existências individuais e coletivas depende diretamente da habilidade das pessoas que as utilizam. A afirmação é do filósofo francês Pierre Lévy, celebrado como um dos pensadores de ponta da cibercultura. Afinal, defende o criador do conceito de inteligência coletiva, ao longo da história, os seres humanos vêm se adaptando a padrões estabelecidos pelos mais diversos tipos de equipamentos, dos telefones convencionais aos tablets, fazendo os mais diversos usos deles. É a habilidade demonstrada pelas pessoas na interação com os equipamentos que torna mais ou menos ricas a produção e a transmissão de informação mediada pela tecnologia e, consequentemente, o processo de produção do conhecimento. Leia, a seguir, a íntegra da entrevista coletiva concedida por Lévy recentemente em São Paulo e da qual a Pré-Univesp participou.

Pré-Univesp: Muitas pessoas afirmam a relação entre homem e computador ou celulares como sendo intuitiva, em especial os desenvolvedores que trabalham a usabilidade. O senhor considera que a tecnologia simplifica ou complica a vida das pessoas? 

Pierre Lévy: A resposta simples: complica! (risos)

Pré-Univesp: Em que medida a aprendizagem de uma nova tecnologia é intuitiva ou depende de processos ou movimentos educacionais (não necessariamente formais) e culturais? Entender a relação tecnologia e homem como intuitiva não acaba sobrepondo diferenças culturais, étnicas, etárias ou socioeconômicas?

Pierre Lévy: É verdade que os grupos sociais que vivem em condições desfavoráveis têm mais dificuldade para utilizar as novas formas de comunicação. Há uma espécie de padronização dos protocolos de comunicação no mundo todo. Tomemos dois exemplos. O primeiro é o telefone. Usar alguns números para contatar uma pessoa é muito estranho, se pararmos pra pensar. Mas com a usabilidade, é possível selecionar o nome de quem se deseja contatar e a ligação é feita. Esquecemos os números, mas eles estão ali. Por causa da padronização podemos telefonar de qualquer ponto do mundo para qualquer parte do globo. Assim, a padronização é inevitável. O segundo exemplo é o carro. Os carros são todos iguais. Há pequenas diferenças, como a mão da direção na Inglaterra, que é do lado esquerdo ou mecanismos automáticos que existem em alguns carros e em outros não. Mas todo o resto é exatamente a mesma coisa no mundo inteiro. E essa padronização simplifica a vida das pessoas, sobretudo das que viajam. É evidente que se pode ter uma adaptação local, mas eu acho que no futuro a padronização industrial vai continuar, especialmente no campo das comunicações e telecomunicações. Essa é uma tendência irrefreável. E eu acho que isso é bom, pois não haveria internet se não tivéssemos o sistema de endereçamento padronizado. Não haveria world wide web sem sistemas universais de páginas, URLs, e assim por diante. Se quiser ainda outro exemplo, temos o formato digital para músicas mp3, que é o mesmo para diferentes tipos de música. No nível técnico, isso é completamente padronizado. Assim, a padronização da técnica é uma coisa e a padronização do conteúdo é outra completamente diferente. Existe a música africana, a música brasileira... Por isso, precisamos distinguir a padronização técnica da padronização cultural. Acredito que a padronização técnica é uma coisa boa para a mudança cultural; misturar diferentes tendências, diferentes correntes, diferentes culturas. 

Pré-Univesp: Mas o fato de os produtos serem padronizados supõe que as pessoas terão a mesma facilidade para utilizá-los sejam elas de qualquer origem ou cultura?

Pierre Lévy: Esse é um aspecto material, de computadores, iphones... Mas eu diria que é difícil para todo mundo, muito mais para culturas orientais e países do hemisfério sul, especialmente, para a geração mais antiga, em qualquer lugar. É menos uma questão de país de origem do que de quantos anos tem o usuário dessas tecnologias. Eu tenho dificuldades. Não gosto de smartphones, são muito pequenos, a visualização é difícil... Não gosto.

Pré-Univesp: Nós temos hoje em dia os smartphones, os tablets e diversos outros equipamentos que contribuem para o desenvolvimento da inteligência coletiva. Qual é o real papel dessas ferramentas nessa nova forma de construção do saber? Como elas podem definir essa construção?

Pierre Lévy: Não é o gadget que eu uso que é definidor: é a habilidade em usá-lo. O que é importante é que nós estamos agora criando ambientes em rede onde a comunicação é ubíqua. Isso quer dizer que de qualquer lugar é possível se comunicar com alguém que está conectado à rede. Este é o primeiro aspecto. O segundo aspecto é que nós temos hoje uma capacidade quase infinita para guardar informação, e isso praticamente sem custos. E o terceiro aspecto é que nós temos um tremendo crescimento da potência computacional, que é a capacidade de o computador fazer operações automáticas através de números, através de símbolos, tornando mais eficaz o processo de comunicação. Então existem: a potência computacional, a comunicação ubíqua por internet e a capacidade quase infinita de guardar informações. Com esses três aspectos nós temos um novo ambiente de comunicação, e esta é a base técnica para o desenvolvimento de um novo tipo de inteligência coletiva. Se existem essas três ferramentas, automaticamente se desenvolve um ambiente forte de comunicação que permite desenvolver a inteligência coletiva. A exploração ou o uso dessa capacidade depende de cada um e não das ferramentas.

Pré-Univesp: Como os processos cognitivos impulsionados e modelados pelas atuais tecnologias de comunicação móveis, que estão avançando forte e rapidamente, diferem das tecnologias digitais de cinco, dez anos atrás? 

Pierre Lévy: Não há tantas diferenças assim. A comunicação móvel teve avanços e a noção de ubiquidade está em todo lugar e em todas as coisas. Essa é a principal diferença. Para todo o resto, não há grandes diferenças, a meu ver. 

Pré-Univesp: Hoje nós temos uma infinidade de ambientes virtuais abertos que podem ser usados na educação, além de novas tecnologias que se apresentam a todo momento. Que tipo de impacto esses ambientes e essas tecnologias estão causando no ensino?

Pierre Lévy: A primeira dificuldade em responder esta questão existe porque nós temos a educação primária, a secundária, a educação superior e, além disso, a pós-graduação sendo que cada uma tem seu estilo de aprendizado. Eu penso que, na educação primária, o relacionamento das crianças com os números, com as palavras, pode ser francamente fortalecido quando elas têm a possibilidade de manipular esses elementos - eu digo as palavras e os números - em telas, seja em computadores ou em tablets. E melhor ainda se essa dinâmica for realmente interativa, online. Então, é possível fazer uso de todas essas tecnologias na educação primária. Mas eu tendo a pensar contra a ideia de um impacto da tecnologia na educação. Não há um impacto da tecnologia na educação. Há ferramentas que estão disponíveis e há educadores que podem usar essas ferramentas de um modo ou de outro. O modo como se usa essas ferramentas é que é importante e não as ferramentas em si. É possível criar várias estratégias de ensino fazendo uso dos mesmos instrumentos, mas não há um impacto que seja automático e universal. Cada um pode explorar essas ferramentas a partir de uma determinada estratégia pedagógica: e é essa forma de aplicação que realmente define a eficácia da utilização dos instrumentos. 

Pré-Univesp: A educação faz a ponte entre o passado, o presente e o futuro, pois é a via de transmissão cultural, em sentido amplo. Com o avanço das tecnologias de comunicação, o senhor entende que a educação vem perdendo sua centralidade nesse processo?

Pierre Lévy: De forma nenhuma. Tudo o que uma geração aprende depende do que a geração anterior deixou. As novas tecnologias são ferramentas muito poderosas para a transmissão do conhecimento, sendo o transmissor e o receptor muito ativos nesse processo, sobretudo quando se considera o tamanho da memória contemporânea e também a capacidade de processar informações. Estou falando de poder computacional. O maior problema que enfrentamos agora é a capacidade de usar corretamente, ou de otimizar essas novas ferramentas. Ressalto aqui que a world wide web surgiu há apenas uma geração atrás. É muito pouco na escala da evolução cultural. Vai levar provavelmente... não sei... três, quatro, cinco gerações até que tenhamos desenvolvido uma cultura para usar essas ferramentas da melhor forma possível.

Pré-Univesp: Há um livro recém lançado no Brasil cujo nome é The shallows: what the internet is doing to our brains. Nesta obra, o autor Nicholas Carr se posiciona, em muitos momentos, contra o uso da internet. Um de seus argumentos é de que se trata de um tipo de ferramenta que funciona como uma extensão do nosso próprio cérebro, e que seu uso constante faz com que exista uma nova maneira de se informar e de pensar. O resultado disso é o condicionamento a determinada forma de lidar com o saber: uma maneira que não leva em conta a necessidade de concentração, reflexão e paciência necessárias à apreciação de um bom romance, por exemplo. Como o senhor avalia esse tipo de crítica?

Pierre Lévy: Eu concordo que essas ferramentas tenham se tornado extensões de nossos cérebros e que condicionem formas de pensar, como toda mídia dominante. É o caso da escrita também, que condicionou nosso cérebro. Agora, quanto ao problema da dificuldade de concentração, vejo novamente como um problema de educação, de disciplina cognitiva. Esquecemos que um dos principais objetivos da educação formal é fornecer aos jovens disciplina cognitiva, sem a qual não se consegue nada. Então, se usarmos essas novas ferramentas com uma forte disciplina cognitiva, focando em prioridades, nas coisas mais importantes, usando enciclopédias e dicionários, contatando pessoas que sabem mais que nós sobre determinado assunto, com capacidade de colaborar, criar algo coletivamente, é fantástico. É preciso também controlar sua própria mente. Se não fizermos isso, não será o computador que fará por nós. Ele é uma extensão do cérebro que depende de como o cérebro funciona, claro (risos). Essa disciplina nunca foi natural. Fazer uma criança ler um livro do começo ao fim sempre foi difícil. A tendência é querer sair, brincar, fazer outra coisa, ver televisão. Hoje, acho que há mais tentações para a distração. Assim, a educação para a disciplina cognitiva deveria ser reforçada. Não vejo outra solução que não adaptar a educação.

Pré-Univesp: Como podemos resolver a questão da propriedade intelectual no universo das mídias digitais?

Pierre Lévy: Esse é um problema muito interessante e muito complexo porque, por exemplo, as pessoas que escrevem romances fazem dessa atividade o seu meio de sobrevivência, e não há como querer que elas abram mão de seus direitos autorais. Mas, considerando outro aspecto da questão, é necessário encorajar as pessoas para a criação intelectual e seu compartilhamento gratuito. Existe ainda o argumento em relação a guias, manuais, ou livros que são utilizados na educação: é completamente contraprodutivo ter que pagar por eles – nós deveríamos poder reproduzi-los sem custos. Eu não sei a resposta correta (para esse problema), mas o que posso dizer, como membro da comunidade acadêmica, é que minha posição é a de que cada livro ou artigo acadêmico deveria ser publicado gratuitamente na internet. É completamente paradoxal que livros científicos sejam tão caros. Vocês podem perguntar: - Tudo bem, então por que você não publica seus livros de graça, na internet? Minha resposta é: - Se eu disponibilizo meus trabalhos em meus sites pessoais, isso não irá contribuir para a minha carreira acadêmica. Porque eu tenho que mostrar essa produção em jornais científicos e outros veículos como esses. De um lado, tenho que apresentar meus trabalhos através de publicações consideradas sérias, e por outro lado eu não quero receber os direitos por meus livros: eu quero apenas que as pessoas os leiam. Em meu caso, em particular, alguns dos livros que escrevi estão disponibilizados gratuitamente na internet. Isso pra mim não é um problema, mas é uma questão para os meus editores. É uma situação difícil. Penso que estamos em um momento de transição e que progressivamente iremos encontrar soluções de acordo com as diferentes situações, para as diferentes pessoas, nos diversos setores da sociedade, e o problema da propriedade intelectual será suprimido. De qualquer modo, acredito que o acesso ao conhecimento científico deva ser facilitado: essa é, de uma maneira geral, a minha posição.

Pré-Univesp: Esta é uma questão sobre a memória. A maioria das ferramentas que criamos para a internet considera a questão da memória. A internet, aliás, é um tipo de memória que está fora do nosso corpo. Existe alguma mudança ocorrendo para que a web não seja apenas uma ferramenta de acesso ao esquecido ou ainda desconhecido, mas também um instrumento de reflexão?

Pierre Lévy: Eu penso que a inteligência coletiva das diferentes comunidades que estão se comunicando através da internet não é reflexiva o bastante. É muito difícil imaginar ou ter conhecimento sobre o modo como nós conhecemos alguma coisa, o modo como construímos nosso conhecimento. Uma situação que eu posso usar como exemplo nesse caso é: quando se lê um artigo da Wikipedia, é verdade que é possível entrar na página de discussão sobre como foi construído aquele verbete. Isso não existe em outros ambientes, e mesmo no caso da Wikipedia é muito difícil porque é necessário acessar as páginas, clicar, procurar. Então, eu sonho com uma situação onde possamos ter uma espécie de espelho de criação da inteligência coletiva, que nos ajudará a sermos criativos e a colaborar da melhor maneira possível. Se nós tivermos o espelho e não apenas a nossa inteligência pessoal, nossa consciência receptiva, mas um tipo de consciência reflexiva a respeito de nossa inteligência coletiva, já teremos muito. Mas hoje esse não é o caso. Logo, para mim, uma das pesquisas mais importantes que devemos realizar segue por esta via.


* O filósofo Pierre Lévy falou sobre conhecimento e interação com as tecnologias de informação e comunicação, em entrevista coletiva no Auditório da Coordenadoria de Tecnologia da Informação da Universidade de São Paulo (USP). Esta entrevista foi publicada também na edição número 131 da revista ComCiência, de setembro de 2011.

 

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