Reportagens
Desastre natural na região serrana do Rio de Janeiro
Maior deslizamento de terra já ocorrido no país, que deixou mais de 900 mortos, serve de alerta para a importância de medidas preventivas
Por Patricia Piacentini
Nos dias 11 e 12 de janeiro deste ano, a região serrana do Rio de Janeiro foi palco do maior deslizamento de terra da história do país. As chuvas destruíram os municípios de Areal, Bom Jardim, Nova Friburgo, Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto, Sumidouro e Teresópolis. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostraram que choveu cerca de 300 mm em 24 horas na região.
De acordo com a defesa civil do Rio de Janeiro, a tragédia deixou 22.604 desalojados; 8.795 desabrigados e 918 vítimas fatais. Bairros foram destruídos; sistemas de água, esgoto e energia elétrica sofreram interrupção; imóveis residenciais, industriais e comerciais foram destruídos e a produção agrícola foi reduzida a menos da metade. O desastre figura como um dos dez piores deslizamentos do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).
Os prejuízos, diz o Tribunal de Contas do Estado (TCE), foram de mais de R$ 600 milhões e os investimentos necessários para a recuperação da região, conforme os órgãos públicos, são de R$ 3,4 bilhões.
O geólogo Juan Antonio Flores, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), assinala que os fatores causadores do desastre foram topografia acidentada, solo espesso em diversos locais e a ocupação desordenada de encostas e margens de cursos d´águas. Apesar de os pontos atingidos pelas chuvas intensas serem os locais mais vulneráveis a deslizamentos, pontua ele, ocorreram também deslizamentos em locais considerados de risco moderado.
Mas o que foi feito até então? Além de recursos liberados por fontes federais, estaduais e doações, outros projetos também foram implantados para a recuperação ambiental daqueles municípios, como o elaborado pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que prevê a liberação de um total de mais de R$ 12 milhões para aplicação no controle de cheias e recuperação ambiental dos atingidos. Outro projeto é o Plano de Reestruturação e Desenvolvimento Sustentável da Região Serrana, em parceria com a Petrobras, para a retomada econômica daquela região.
Porém, os especialistas alertam que faltam ações de prevenção para que a tragédia não se repita. “Medidas de prevenção como um Plano Municipal de Redução de Riscos e sistemas de alerta poderiam ter sido tomadas”, diz Flores. Segundo o pesquisador, daqui pra frente devem ser implementadas ações de educação ambiental, consciência cidadã, formação de agentes comunitários de defesa civil, treinamento e simulações de situações de emergência.
“São desastres previsíveis. Temos que ter mecanismo para situações de emergência, construir abrigos, implantar sistemas de alerta e fazer com que pelo menos uma parte da população seja capacitada para orientar os outros moradores. É necessário capacitar as pessoas, treinar e orientar”, enumera o geógrafo Christovam Barcellos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Em outubro, o Ministério da Integração Nacional realizou um simulado de preparação para desastres nas cidades de Nova Friburgo e Petrópolis. Esse simulado teve início com um alerta dos órgãos estaduais e municipais de defesa civil com 24 horas de antecedência da previsão do desastre. A etapa seguinte contou com as defesas civis locais, que dispararam um alarme aos moradores das áreas vulneráveis via sistemas de sirene, SMS, carros de som e líderes comunitários. Ao final, foi realizada uma evacuação das comunidades, utilizando rotas pré-definidas pelas defesas civis.
Outra medida do Estado do Rio de Janeiro será a instalação de 83 sirenes de alertas de chuvas em 40 áreas consideradas de risco nos municípios de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, na região serrana.
Saúde
O projeto Observatório Nacional de Clima e Saúde, criado em 2009, monitora as relações entre mudanças climáticas e seus efeitos na saúde humana: identifica e analisa as situações, tendências e padrões climáticos, e as condições de saúde das regiões brasileiras, disponibilizando informações aos sistemas nacionais de alerta.
Desenvolvido pela Fiocruz, por meio do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict) e pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp), o projeto funciona como um ponto de convergência e análise de dados gerados por uma rede de instituições, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os ministérios do Meio Ambiente e das Cidades, as universidades, dentre outros.
O modelo, que tem Barcellos como um de seus coordenadores, ajudará no planejamento e na definição de ações prioritárias e de emergência em situações de desmoronamentos e enchentes. Uma das prioridades do projeto é o impacto gerado por ondas de calor, inundações e secas. “É difícil monitorar um desastre; as primeiras estimativas falam sobre mortes e desalojados, mas depois de algum tempo ninguém noticia mais. A pessoa adoece e ninguém diz que foi por conta da enchente”, explica Barcellos, justificando a importância do monitoramento entre clima e saúde.
Saiba mais
O Observatório Nacional de Clima e Saúde disponibiliza por meio de um site um conjunto extenso de dados, estudos, metodologias e resultados.