Reportagens
A força que nunca seca
Populações da Amazônia e do sertão nordestino enfrentam novos desafios trazidos pela intensificação das estiagens
Por Carolina Cantarino
Lá se pode ver ao longe/ A senhora com a lata na cabeça/ E a força que nunca seca/ Pra água que é tão pouca... Os versos criados por Chico César e Vanessa da Mata, e cantados por Maria Bethânia, ecoam um universo de imagens em torno da seca e do sertão brasileiro, que tende a ser associado ao Semiárido nordestino. Mas estiagens extremas e grandes variações nas precipitações de chuva começam a afetar paisagens insuspeitadas, como aquela onde se concentra grande parte da água doce do mundo.
Recentemente, a Amazônia atravessou dois períodos de intensa seca, intercalados por graves enchentes: as estiagens de 2005 e 2010 e, entre elas, as inundações de 2009. Desde o início do século XX, quando eventos climáticos começaram a ser registrados no Brasil, não se tinha notícia de secas e inundações tão graves. A ocorrência desses fenômenos confirma a sensação de intensificação de eventos climáticos aos quais as populações locais já estão habituadas a conviver, mas cuja magnitude as surpreende e aumenta sua vulnerabilidade.
"As pessoas que vivem no interior da Amazônia estão acostumadas com a principal característica da região: o tempo da cheia (principalmente os meses de maio e junho) e o tempo da seca (setembro, outubro e novembro). Por isso, as comunidades se organizam territorialmente para conviver com essa alternância. Mas tanto a cheia quanto a seca tornam-se um problema quando são excessivos", constata Raquel Wiggers, antropóloga e professora da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Projeções apresentadas no documento Riscos das Mudanças Climáticas no Brasil, divulgado pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) em maio desse ano, alertam para a possibilidade de aumento significativo da seca em várias regiões do Brasil. No caso da Amazônia, o desmatamento pode acelerar as mudanças climáticas por conta da quantidade de carbono liberado na atmosfera quando a floresta é derrubada e queimada. O desmatamento - provocado, principalmente, pela expansão das plantações de soja e das pastagens - eleva as temperaturas e diminui as chuvas em razão da rápida evaporação; e o aumento da seca na região poderá provocar a substituição da floresta por uma vegetação do tipo savana (a chamada "savanização da Amazônia").
Outra área que sofrerá com a possibilidade de aumento significativo das condições de seca, segundo as projeções realizadas pelo Inpe, é o Semiárido, região que compreende partes dos Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Minas Gerais. "Mudanças climáticas no Brasil ameaçam intensificar as dificuldades de acesso à água. A combinação das alterações do clima - na forma de falta de chuva ou pouca chuva acompanhada de altas temperaturas e altas taxas de evaporação -, com a competição por recursos hídricos, pode levar a uma crise potencialmente catastrófica, sendo os mais vulneráveis os agricultores pobres, como os agricultores de subsistência na área do Semiárido do Nordeste", escreve José A. Marengo, pesquisador titular do Inpe, em artigo sobre os prováveis impactos das mudanças climáticas no sertão nordestino.
A maior frequência das secas nessa região, conforme o pesquisador, poderá provocar um maior deslocamento da população rural para as cidades ou para áreas onde seja capaz de desenvolver agricultura irrigada, gerando "ondas de refugiados ambientais do clima" e "aumentando os problemas sociais já presentes nas grandes cidades", repetindo-se o que já teria sido observado nas grandes secas de 1777-1778, 1876 e 1983, e 1998, ano em que a seca provocou a queda de 72% da produção de feijão, milho, arroz e algodão - produtos que compõem a agricultura de subsistência marcando a economia da região, assim como a pecuária extensiva.
As previsões do Inpe em relação ao Semiárido, num cenário de aquecimento global (ou seja, sem redução significativa da emissão de gases de efeito estufa), são a de que, até o final do século XXI, o aumento de 3% da temperatura média do planeta fará com que o Semiárido se transforme num deserto, já que a curta estação chuvosa que caracteriza a região poderá desaparecer completamente. Nessa "desertificação do Semiárido", estiagens que duram de seis a sete meses se estenderiam pelo ano todo.
O rio
Se a possibilidade de um futuro catastrófico de "savanização da Amazônia" e "desertificação do Semiárido", criado pelas modelagens climáticas, assusta e faz pensar na gravidade das mudanças do clima, a comoção causada pelos dramáticos desastres naturais que estão acontecendo no presente, muitas vezes, obscurece um elemento crucial sobre o tema: a situação de catástrofe não é um problema causado unicamente pela natureza, mas também resulta da vulnerabilidade da população (ver reportagem). E alguns grupos sociais são mais vulneráveis aos desastres ambientais do que outros. A combinação de fatores naturais e sociais, portanto, é que define o desastre, de acordo com alguns especialistas: se as características físicas do evento determinam a probabilidade de ocorrência do fenômeno, serão as condições sociais de vulnerabilidade da população que determinarão, por sua vez, a severidade dos impactos sofridos.
As comunidades ribeirinhas da Amazônia, por exemplo, estão habituadas à convivência com os rios, lembra Raquel Wiggers. As casas geralmente são construídas em terra firme e sobre palafitas, para que as águas, quando subirem, não as atinjam nos tempos de cheia. Essa estratégia possibilita que essas mesmas casas possam ter seus terrenos alagados no inverno, mas não fiquem muito distantes do rio nos períodos de seca, no verão. Existem também "casas flutuantes" (comércios, restaurantes, escolas, hotéis), construídas em cima de grandes troncos de madeiras e que chegam a formar comunidades inteiras.
Ao relatar as viagens que tem feito pelo interior da Amazônia, Raquel Wiggers informa que, com a ocorrência das secas excessivas como as dos anos 2005 e 2010, muitas comunidades ficaram isoladas e inacessíveis, uma vez que o rio é o principal meio de transporte e circulação. "Alguns 'braços de rio' secam e é preciso caminhar na lama, às vezes por muitos quilômetros, para conseguir se chegar às casas. Todas as atividades que necessitam de deslocamento ficam comprometidas. As casas flutuantes, por sua vez, atolam na lama, já que geralmente estão localizadas em pequenos rios, onde estão seguras do vento e do chamado 'banzeiro', ondulações e redemoinhos que acontecem nos grandes rios por ocasião de temporais e ventanias", descreve.
Há municípios do interior do Amazonas nos quais somente se chega pelo rio (não há rodovias ou estradas disponíveis), e a geração de energia é feita por termoelétricas movidas a diesel ou gasolina. Com a seca, o abastecimento de combustível torna-se limitado ou mesmo impossível, e várias atividades veem-se prejudicadas, até mesmo aquelas relacionadas às necessidades consideradas mais básicas, como o consumo de água e a alimentação, já que o funcionamento dos poços artesianos e a refrigeração de alimentos dependem de energia. As famílias precisam recorrer aos rios para obtenção de água, para beber e cozinhar, e os altos índices de coliformes fecais nas águas dos rios próximos das comunidades podem provocar doenças, como hepatite e diarreias.
A alimentação, por sua vez, baseada no peixe (e na farinha de mandioca), também fica bastante prejudicada. "Durante os meses de vazante, formam-se lagos bastante piscosos; são os meses de maior fartura para essas comunidades ribeirinhas. Nos anos com seca excessiva, muitos lagos secam, provocando a morte rápida de peixes. Como não há possibilidade de refrigeração, porque muitas comunidades rurais no Amazonas não dispõem de energia elétrica, o quadro de desolação da população aumenta ainda mais", dimensiona Wiggers.
Se a história dessas comunidades ribeirinhas é tecida na convivência com os diferentes tempos (de seca, de cheia), que marcam sua relação com os rios, a magnitude das secas e das cheias dificulta o enfrentamento da situação, a "adaptação" ou a "resiliência", termos utilizados pelos estudiosos dos chamados hazards (riscos) para se referir à capacidade de resposta ao desastre por parte das comunidades afetadas por eles.
O sertão
O debate sobre os riscos da intensificação da seca no Semiárido brasileiro traz também o perigo de se recair em estereótipos sobre o Nordeste, que tendem a restringi-lo às mazelas provocadas pela seca e às ideias de escassez, fome e falta. O Nordeste é uma região vulnerável às mudanças climáticas porque nele a água já é um problema há muito tempo. E não se trata somente de escassez, mas de concentração de renda, de terra e também de água, questão que veio à tona na mídia, há alguns anos, com as obras de transposição do rio São Francisco.
A irregularidade das chuvas no Nordeste foi verificada, mais uma vez, num estudo divulgado no mês passado pela Revista Pesquisa Fapesp, que analisou dados diários sobre precipitações pluviométricas levantados por 600 estações meteorológicas, ao longo dos últimos 30 anos, em nove Estados nordestinos. Constatou-se o ritmo bastante oscilante das chuvas, o que implicaria, como possível "solução", numa preparação para a sua chegada, que permita armazenar água e garanti-la para o período de estiagem.
A aposta nessa preparação, como forma de defender o direito de todos à água, é a proposta da Articulação no Semiárido (ASA), uma rede que reúne centenas de organizações que trabalham com tecnologias sociais voltadas para a agroecologia e para a captação e armazenamento de água. A principal aposta desses grupos é a de que é possível conviver com a seca, através da criação de alternativas para a permanência das populações rurais no campo. Um dos projetos da rede é o Programa Um Milhão de Cisternas, destinado às famílias que residem na zona rural e que não têm acesso ao sistema público de abastecimento de água. Em vez de caminhar quilômetros para buscar água nos barreiros, variados tipos de cisternas permitem captar água das chuvas (através de calhas instaladas nos telhados das moradias) e abastecer reservatórios que possibilitarão que haja água perto de casa para beber, cozinhar e produzir alimentos, durante os meses de estiagem. Vencidas as dificuldades com a água e a irrigação, surgem novas perspectivas de renda para as famílias rurais baseadas, principalmente, na diversificação da agricultura, indo além da roça de milho e feijão, com o plantio de verduras, hortaliças e frutas - economia que, aliás, numa outra escala, voltada para o mercado de exportação, já se mostrou viável no Nordeste, como no caso da produção de uvas e mangas nos municípios de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).
Mas a criação de alternativas para a permanência no campo não pode desconsiderar a migração também como uma estratégia válida para se resistir às condições de vida trazidas pela seca. É preciso lembrar que a migração e a mobilidade sempre marcaram a história das populações rurais no Brasil, nas figuras nômades, por exemplo, do vaqueiro, do mascate e do tropeiro. "Migrar, em última instância, é dizer não à situação em que se vive, é pegar o destino com as próprias mãos, resgatar sonhos e esperanças de uma vida melhor ou mesmo diferente", afirma Isabel Guillem, historiadora e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, ao escrever sobre a banalização da história da seca e da migração no Nordeste.
Essa banalização, comenta Guillem, pode ser notada no clichê que diz que "o problema da seca e da migração no sertão nordestino é histórico". "Histórico", define a pesquisadora, sugeriria dois sentidos: o que ocorre com frequência e o que não tem solução. Essa forma de encarar o problema resultaria numa naturalização da história, que resume as histórias do sertão à seca. Semiárido terminaria assim, sendo transformado numa região que parou no tempo porque nele, supostamente, nada mudaria por causa da permanência e repetição dos problemas.
Nas conhecidas palavras do escritor Euclides da Cunha, o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Capacidade de resiliência e adaptação, diriam, por sua vez, os especialistas em estudos sobre vulnerabilidade e desastres. Ou, ainda, voltando à música de Chico Cesár e Vanessa da Mata cantada por Bethânia: A lata não mostra/ O corpo que entorta/ Pra lata ficar reta...
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O sertão (em oposição ao litoral) já funcionou como síntese ou interpretação do Brasil em obras como Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, Geografia da Fome (1946), de Josué de Castro, Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, ou Menino de Engenho (1932), de José Lins do Rego. Um sertão símbolo de atraso, injustiça, miséria, fome, seca, cangaço, coronelismo, fanatismo religioso... Um sertão que precisaria acabar, como nas promessas de desenvolvimento e modernização do governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), e na construção de uma cidade no "interior" do Brasil, de uma nova capital para o País em pleno... sertão. Mas eis que poucos anos antes da inauguração de Brasília, em 1960, nasce outro sertão, diferente de todos os anteriores: o livro Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa. O sertão de Rosa é diferente porque é maior do que uma região ou espaço geograficamente localizável. Ele está em toda parte, menciona o escritor. Num filme recente do cinema brasileiro, Mutum (2007), de Sandra Kogut, inspirado na novela Campo Geral, de Rosa, o drama do menino Miguilim é recriado através dos grandes olhos do menino Thiago: da alegria das simples e pequenas coisas do cotidiano (a amizade com o irmão mais velho, as brincadeiras com os O sertão está em toda parte, por que quanta gente, em quantos lugares, não terá enfrentado Não apenas o Nordeste e o Brasil, a seca e a fome, a desigualdade e a luta pela sobrevivência, |
Para saber mais:
Trailer do filme Mutum: www.youtube.com/watch?v=Ob2j29lZUog
Vídeo sobre a Articulação no Semiárido (ASA): www.youtube.com/watch?v=QUbKRsFdZKM