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Desastres naturais no imaginário indígena Guarani

Uma visão indígena sobre o equilíbrio e os desequilíbrios no mundo natural

Por Juracilda Veiga*
Desastres naturais no imaginário indígena Guarani
15/11/2011

 

No Brasil atual, sobrevivem mais de 220 povos indígenas, cuja existência é anterior à criação dos Estados Nacionais. Entre esses povos, está a grande nação Guarani, em que reconhecemos três etnias: Nhandeva, Kaiowá e Mbyá, cujos territórios se espalham pelo que são, hoje, três países: Argentina, Brasil e Paraguai [1]. Entre todos os povos indígenas, os Guaranis, por acumularem uma experiência milenar nesse espaço, refletindo com muita sabedoria sobre seu aprendizado, continuam nos encantando como grandes filósofos e poetas. 

Os indígenas, de modo geral, consideram que – no momento inaugural do mundo – tudo foi criado na sua forma mais perfeita e acabada. Ser perfeito é ser capaz de refazer o caminho dos antepassados, os “pais primeiros”. As inovações sempre trazem a marca do que ocorreu nos primeiros tempos, modelo para a situação atual. 

O povo Guarani acredita que houve uma primeira terra que submergiu em um grande dilúvio por causa de um incesto (uma união entre um homem e sua tia, irmã de seu pai). Com essa “falta”, inaugurou-se uma “nova” terra, Yvy Pyaú, com o espaço humano separado dos deuses. Essa terra atual não é igual à primeira criação; agora ela é a terra da imperfeição, de onde será banida a totalidade acabada; é a terra do mal e da infelicidade.

A explicação para os eventos de desastres naturais, entre os Guaranis, advém da convicção de que a terra é perecível, que já foi destruída no passado e poderá ser novamente destruída, já que é uma terra imperfeita. Mas há uma terra perfeita, Yvy Marã-eỹ, aspiração e destino final dos Guaranis.

Os Guaranis creem possuir uma vocação ontológica para se tornarem seres divinos, que devem retornar para o lugar de onde provém sua palavra/alma/espírito. Segundo Pierre Clastres, “Ñe’ẽ  [2] [“alma”/“palavra”] é o que constitui um humano como pessoa, o que, saído dos deuses, vem habitar o corpo destinado a ser sua moradia”. A “palavra” é entendida por eles como a essência do divino: alma e palavra se expressam pelo mesmo vocábulo. Dizer a sua palavra é fundamental para que alguém seja considerado uma pessoa, um ser autônomo. Eles não concebem que sejam convidados para uma reunião em que não seja garantida, a cada pessoa presente, o direito à palavra. O bom anfitrião tem a obrigação de distribuir a palavra a cada um dos convidados.

Eles começaram a caminhar (oguatá) desde seus lugares mais antigos com a percepção de que a terra está no fim e poderá ser destruída. Diz uma de suas narrativas tradicionais, oralmente transmitida há séculos: “A terra ardia cada vez mais e eles perguntaram a Guyraypoty: Esse lugar subsistirá? Assim respondeu ele aos seus filhos: esse lugar, dizem, é a montanha que detém o mar. Ela é destinada a subsistir. Então, instalaram-se nela”. 

Esse poderia ser o motivo pelo qual os Guaranis têm ocupado a Serra do Mar e os ambientes da Mata Atlântica, e pelo qual seja possível contemplar o mar de muitas de suas aldeias atuais. Se a primeira terra acabou por um dilúvio, um segundo cataclisma anunciado virá pelo fogo. Estar, portanto, próximos do mar possibilitaria sobreviver a esse desastre. 

O etnólogo Curt Nimuendajú acompanhou, no início do século XX, um grupo de Guaranis que, partindo do Mato Grosso do Sul (na região do Rio Iguatemi), chegaram ao litoral paulista (mais especificamente em Praia Grande) com o objetivo de atravessar o mar e, assim, chegar, em vida, à terra sem mal. Junto ao mar, eles dançaram por vários dias, na esperança que fossem arrebatados diretamente para a terra perfeita. Como isso não aconteceu, convenceram-se de que, por terem aceitado bens e alimentos dos não índios (como as comidas com sal), eles tinham se tornado impuros e, por isso, não seriam elevados ao céu em vida, tendo que passar pela morte para chegar à terra perfeita.

Conforme os Guaranis, o mundo criado por Ñanderuvusú está sustentado sobre uma cruz (deitada), que o divide em quatro espaços, sendo o Leste considerado o “nosso rosto” ou “nossa frente”, que é o lado de onde vem o Sol, para o qual miram os Guaranis (e para onde dirigem suas orações), e o lado Oeste as “nossas costas”, o “nosso atrás”. Norte e Sul são, apenas, os (nossos) lados. 

“Ñanderuvusu chegou só, no meio da escuridão, e conheceu-se a si mesmo sozinho.
Os primeiros morcegos estavam ali e lutavam entre si no meio da escuridão.
Ñanderuvusu levava o sol no peito. Ele traçou a cruz eterna (de madeira),
a colocou na direção leste, pisou em cima e já começou a fazer a terra.
A cruz eterna permanece até hoje como suporte da terra.
E quando ele retirar o suporte da terra ela cairá.
Em seguida ele trouxe a água.”.  
(Nimuendajú [1914] 1978:155)

 

 A vida sobre a terra é a história dos heróis Guarani – civilizadores representados pelo Sol e pela Lua, respectivamente o “irmão maior” e o “irmão menor”. O Sol, como irmão maior, representa a sabedoria (Nderekey ou Dikokave, termo que varia, dependendo da etnia envolvida), enquanto o irmão menor, a Lua (Nderevy ou Kotsuwí), representa a imperfeição humana e, por isso, muitos defeitos no mundo são atribuídos a ela (ou “ele”, dado que para os Guaranis é um ente masculino). As manchas na Lua são imputadas ao fato dele esgueirar-se durante a noite para a rede de sua tia. Esta, para descobrir quem a procurava todas as noites, passou resina em suas mãos e sujou o rosto dele. Deste modo, ainda podemos ver as manchas na Lua.

Os eclipses também são explicados como sendo uma luta de um mau espírito (anhá) que sempre tenta comer a Lua, mas que não consegue, por intervenção do Sol.

A vida na terra deve ser mantida pela aliança dos Guaranis com suas divindades. Em muitas de suas aldeias ainda são mantidas as Casas de Reza (Opy), nas quais, ao entardecer, os Guaranis devem se reunir e cantar até alta noite e, às vezes, até o amanhecer. Essas divindades, quando visitam a terra, podem trazer consigo algum fenômeno perturbador. “Dikokave é brabo”, dizia uma rezadora Guarani. Kotsuwí é mais ainda: ele traz consigo vendavais. Tupã provoca muitos relâmpagos e trovões.  Nas aldeias que mantêm as Casas de Reza, esse é considerado um lugar não vulnerável a essas catástrofes, de modo que os Guaranis são aconselhados a nelas permanecer em ocasiões de crises e de perturbações.

Os Guaranis têm a convicção que são os filhos prediletos de Nhanderu (literalmente, “nosso pai”), que mantém o mundo por causa das orações e do comportamento dos Guaranis. Quando os Guaranis deixarem de rezar, ou deixarem de existir, o mundo se acabará, porque não haverá motivo para Nhanderu manter esse mundo em pé.

*Juracilda Veiga é pesquisadora do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Fundação Nacional do Índio (Funai).


Bibliografia

CLASTRES, Pierre (1990). A fala sagrada: mitos e cantos sagrados dos índios Guarani. Campinas: Editora Papirus.

VEIGA, Juracilda (2007). Cosmologia Guarani: Os apapokuva do Laranjinha,(PR). In Línguas e Culturas Tupi. Ana Suelly Arruda Câmara Cabral e Aryon Dall’igna Rodrigues (orgs.). Campinas, Curt Nimuendaju; Brasília: LALI/UNB.

NIMUENDAJÚ, Curt (1978). Los mitos de creación y destrucción del mundo como fundamentos de la religión de los Apapokuva-Guarani. Lima: Juergen Riester G. (Ed.) / Centro Amazónico de Antropología y Aplicación Practica. Originalmente publicado em Zeitschrift für Ethnologie, n. 46, p. 284-403 (Berlin, 1914)

 


[1] Há ainda numerosos grupos de língua Guarani na Bolívia.

[2] Entre os Mbyá, porém, a ‘palavra divino-humana’ é mais propriamente expressa pelo termo “aywu”.

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