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Japão e o risco nuclear: alerta para o mundo

Segundo o pesquisador, a principal consequência do acidente no Japão foi o abalo da convicção de que a energia nuclear é totalmente segura

Por José Goldemberg*
Japão e o risco nuclear: alerta para o mundo
15/11/2011


A “idade de ouro” da energia nuclear foi a década de 1970, quando cerca de 30 reatores novos eram postos em funcionamento a cada ano. Existem hoje cerca de 450 reatores nucleares em funcionamento, que produzem aproximadamente 15% da energia elétrica mundial. A maioria deles está nos Estados Unidos, França, Japão e nos países da ex-União Soviética. Só no Japão, existem 55 deles. 

A partir da década de 1980, o crescimento do número de reatores instalados estagnou em consequência dos acidentes nucleares de Three Mile Island [1], nos Estados Unidos, em 1979, e Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Outro motivo para esta estagnação foi o aumento do custo dos reatores, provocado pela necessidade de melhorar a sua segurança. Com a queda do custo dos combustíveis fósseis na década de 1980, eles ficaram ainda menos competitivos em relação a outras formas de produção de eletricidade. O custo da instalação de um reator nuclear triplicou entre 1985 e 1990.

Em 2011, ocorreu o terceiro grande acidente da Era Nuclear, o de Fukushima, no Japão, que certamente vai levar a uma reavaliação das vantagens e desvantagens de utilizar reatores nucleares. São, portanto, três grandes acidentes nucleares em 50 anos de operação de reatores nucleares. Se a frequência de acidentes permanecer como está, podemos esperar outro grande acidente nos próximos 15 a 20 anos.

Os acidentes de Three Mile Island e Fukushima ocorreram devido a defeitos nos sistemas de refrigeração dos reatores. Apesar desses problemas terem causas diferentes, eles tiveram consequências graves: em Chernobyl, o reator explodiu. O fato fundamental, porém, é que a refrigeração é essencial para que um reator funcione. Sem ela, os elementos combustíveis de urânio fundem e liberam radioatividade.

O que se aprende com essa sucessão de acidentes é que sistemas complexos como reatores nucleares são vulneráveis, sendo impossível prever toda e qualquer espécie de acidente. Em Three Mile Island não houve terremoto ou tsunami e, nem por isso, o sistema de refrigeração deixou de falhar. 

Reavaliação

A principal consequência do acidente nuclear no Japão foi o abalo da convicção, apregoada pelos entusiastas da energia nuclear, de que ela é totalmente segura. Esta convicção é agora objeto de reavaliação em vários países e certamente também o será no Brasil.

As ponderações sobre a energia nuclear envolvem dois componentes. Em primeiro lugar, em termos econômicos, a energia elétrica produzida em reatores nucleares é desfavorável, se comparada com a eletricidade produzida a partir de carvão ou gás. Ainda assim, ela se justificaria porque o uso de carvão ou gás para geração de eletricidade resulta na emissão de gases responsáveis pelo aquecimento da Terra, principalmente o dióxido de carbono. Em funcionamento normal, reatores não emitem este gás. Assim, a competitividade de energia nuclear poderia melhorar se a emissão de carbono fosse taxada.

Em segundo lugar, pesam os riscos ambientais, e à vida humana, oferecidos pela radioatividade. Este parece ser o “calcanhar de Aquiles” da energia nuclear. Outras formas de produção de eletricidade também oferecem riscos. Isto vale para a mineração do carvão e usinas hidroelétricas que, ao se romperem, podem acarretar mortes e outros problemas, como o deslocamento de populações. No entanto, a radioatividade que é liberada em acidentes nucleares causa não somente mortes imediatas (como ocorreu em Chernobyl), mas outras doenças – inclusive o câncer – que só se manifestam anos após as pessoas terem sido expostas a altas doses de radioatividade. 

Escolher a fonte de energia mais adequada depende, portanto, de uma comparação entre os benefícios, os custos e os riscos que ela provoca e envolve. Até recentemente, após 25 anos sem acidentes nucleares de grande vulto (o último deles foi o de Chernobyl), a confiança na segurança de reatores aumentou e houve um esforço para estimular um “renascimento nuclear” com apoio governamental, principalmente nos Estados Unidos. 

O acidente nuclear de Fukushima destruiu essa credibilidade e reviveu todos os problemas que os reatores nucleares podem trazer, provocando uma reanálise do interesse em expandir a energia nuclear como solução na Europa e nos Estados Unidos.

Bélgica, Alemanha, Itália, Japão e Suécia, entre outros, já decidiram desativar seus reatores nucleares quando estes atingirem o final de sua vida útil (de 30 a 40 anos), ou cancelaram planos para aquisição de novos reatores. Antes do acidente de Fukushima, a Agência Internacional de Energia de Paris previa que até 2035 seriam adicionados 200 novos reatores aos existentes hoje. A previsão já foi reduzida à metade. 

Esta reavaliação é particularmente importante para os países em desenvolvimento como o Brasil, que tem outras opções – melhores sobre todos os pontos de vista –, além da energia nuclear para a produção de eletricidade: energias renováveis como a hidroelétrica, a eólica e a de biomassa.


* José Goldemberg é físico, professor da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). 

 


[1] O acidente de Three Mile Island foi um derretimento nuclear parcial da Unidade 2 da central nuclear de Three Mile Island, no condado de Dauphin, perto de Harrisburg.

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