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Formação de furacões

Pesquisador explica as condições que favorecem a formação de ciclones tropicais no Caribe e nos Estados Unidos

Por Ricardo de Camargo*
Formação de furacões
15/11/2011

 

Furacões ou tufões são diferentes termos regionais para se referir à ocorrência de intensos ciclones tropicais, os quais são definidos como centros de baixa pressão não frontais de escala sinótica sobre oceanos tropicais ou subtropicais, com formação organizada de nuvens profundas e intensa circulação ciclônica à superfície. A energia para seu desenvolvimento é suprida fundamentalmente através da evaporação da água do mar em regiões com elevadas temperaturas superficiais, sendo que o valor de 26,5o C é usado para mapear áreas propícias ao desenvolvimento destes sistemas.

O berçário dos ciclones tropicais é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), área próxima ao Equador que circunda a Terra e é caracterizada por baixas pressões atmosféricas de superfície, convergência de vento e de umidade e movimento ascendente de ar. A existência e o caráter permanente da ZCIT estão relacionados à forma esférica da Terra e à incidência mais efetiva de radiação solar sobre a região equatorial, que promove grande aquecimento da superfície terrestre e da atmosfera. 

Durante as estações do ano, a ZCIT migra juntamente com o Sol e, em função da proporção terra-oceano ser maior no Hemisfério Norte, a ZCIT normalmente se afasta menos da linha do Equador em direção ao sul, nos meses de janeiro a abril, do que em direção ao norte nos meses de julho a outubro. É durante os meses quentes do verão boreal (no Hemisfério Norte) que acontece a temporada dos furacões ou tufões.

Um dos casos mais devastadores de furacão dos últimos anos ocorreu em 2005. O ciclone tropical Katrina teve uma grande intensificação ao passar sobre as águas aquecidas do Golfo do México, atingindo a cidade de New Orleans, na costa sul dos Estados Unidos, causando inúmeras mortes e enorme prejuízo material.

Algumas porções da ZCIT ficam particularmente favoráveis à formação de nuvens profundas, tanto pela instabilidade atmosférica quanto pela presença de águas aquecidas na superfície do mar. Nestas regiões, há grande condensação de vapor, e a correspondente liberação de calor latente favorece ainda mais o abaixamento de pressão de superfície, que, por sua vez, potencializa a convergência dos ventos, a própria evaporação e o consequente movimento ascendente de ar úmido. 

À medida que o sistema evolui, a pressão atmosférica vai diminuindo e os ventos à superfície vão aumentando, podendo atingir o estágio de depressão tropical quando os ventos fluem acima de 17 m/s; de tempestade tropical quando os ventos atingem entre 17 e 33 m/s; e, finalmente, de furacão quando os ventos superam 33 m/s. Dentro da categoria furacão, a intensidade do vento e a pressão atmosférica são usados para classificar a severidade do sistema, de acordo com a escala de Saffir-Simpson:

Categoria Vento Sustentável em Superfície (m/s) Pressão em Superfície (mb) Storm Surge (m)
1 33 - 42 Maior que 980 1,0 - 1,7
2 43 - 49 979 - 965 1,8 - 2,6
3 50 - 58 964 - 945 2,7 - 3,8
4 59 - 69 944 – 920 3,9 - 5,6
5 > 70 < 920 > 5,7

Outro ingrediente fundamental para a formação de furacões é a presença, nos níveis baixos da atmosfera tropical, de estruturas oscilatórias denominadas “ondas de leste”. Estes distúrbios meteorológicos foram inicialmente detectados pelos indianos, em 1875, a partir da elaboração regular de mapas do tempo baseados em dados da superfície terrestre. Desde aquela época, ficou comprovado que a atuação de ciclones tropicais, que geram enormes calamidades na Baía de Bengala (Índia), estava diretamente relacionada às ondas de leste. Já na década de 1930, a mesma constatação foi feita para os furacões do Atlântico Tropical Norte e para os tufões do Pacífico Tropical Norte durante o verão boreal, pois as ondas de leste interagem com a própria ZCIT na presença de águas superficiais aquecidas.

As ondas de leste possuem estrutura variável ao longo do globo e sua origem deve-se basicamente à existência de contrastes latitudinais de temperatura. Para a região do Atlântico Tropical, essas ondas têm períodos da ordem de quatro dias e comprimentos de onda da ordem de 2.500 km. Sua geração tem relação direta com o Jato Africano de Leste, estrutura dos baixos níveis originada pelo contraste superficial de temperatura existente entre as águas frias do Golfo da Guiné e a região do deserto do Saara, que durante o verão boreal fica particularmente mais pronunciado.

Uma importante peculiaridade dos ciclones tropicais é que deve haver uma distância mínima da linha do Equador para que o efeito de rotação da Terra seja determinante na formação da circulação ciclônica em torno do centro de baixa pressão associado. Outro fato relevante é que ciclones tropicais não podem se desenvolver espontaneamente, pois necessitam de um sistema levemente organizado com rotação considerável e influxo de calor e umidade nos baixos níveis.

Por outro lado, um fator determinante para a ocorrência dos ciclones tropicais é a inexistência de variação significativa entre o campo de vento à superfície e aquele nos altos níveis da atmosfera. A presença de grandes mudanças no campo de vento ao longo da direção vertical na coluna atmosférica desfavorece a organização do ciclone tropical. Esta é a explicação mais contundente para a rara ocorrência de ciclones tropicais no Atlântico Tropical Sul, além da restrita atuação da ZCIT neste setor oceânico.

Finalizando, cabe acrescentar que os ciclones tropicais são nomeados para facilitar a comunicação entre os previsores e o público em geral, no que diz respeito a previsões, avisos e alertas. Uma vez que os ciclones podem ter duração de uma semana e que podem existir dois ao mesmo tempo, os nomes reduzem a possibilidade de confusão. Historicamente, a primeira denominação com nome próprio a um furacão foi feita por um australiano, no início do século XX, para criticar políticos sem aceitação.

 

 


Velhos ventos, novos problemas 

Mais recentemente, três ciclones tropicais passaram pelo Caribe e América do Norte, causando grandes prejuízos materiais e, mais grave, tirando vidas. Em agosto deste ano, o furacão Irene deixou mais de 800 mil pessoas sem energia elétrica ,quando passou por Porto Rico. No Caribe,
o Irene atingiu ainda a República Dominicana e o Haiti, com ventos de 130 km/h. O ciclone, um
dos mais violentos do ano, chegou até os Estados do Norte dos Estados Unidos e o Canadá.
Um mês depois, em setembro de 2011, as tempestades tropicais Maria e Nate deixaram em
alerta, novamente, várias ilhas do Caribe, o México e os Estados do Nordeste dos Estados
Unidos. Embora os sistemas de previsão de furacões venham se desenvolvendo nos últimos anos, os furacões ainda trazem graves consequências às regiões atingidas, não necessariamente por
terem se tornado mais fortes, mas porque aumentou significativamente a ocupação das áreas litorâneas, muitas vezes sem planejamento ou sem infraestrutura necessária para suportar a ventania. 


 

* Ricardo de Camargo é professor do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP).

 

Saiba mais:

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