• pré-Univesp – No. 16 2011 – Desastres naturais – Novembro de 2011
Entrevistas

Margaretha Wahlström

Representante especial da Secretaria Geral da ONU comenta o impacto das mudanças climáticas no aumento de desastres naturais no mundo

Por Antonio Alonso Jr.
Margaretha Wahlström
15/11/2011

Representante especial da Secretaria Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para Redução do Risco de Desastres desde 2008, Margareta Wahlström é sueca e sua formação acadêmica inclui história econômica, ciências políticas, antropologia social, arqueologia e filosofia da ciência. Ela dedicou mais de 30 anos de sua carreira a trabalhos humanitários e de socorro a desastres internacionais. Durante esse tempo, ela ocupou diversos postos na esfera humanitária internacional e participou de missões em mais de 100 países, incluindo o Oriente Médio, Norte da África, Sudeste Asiático e América Latina. Ela esteve no Brasil no começo desse ano acompanhando os desastres provocados pelos deslizamentos de terra no Rio de Janeiro. Em entrevista para a Pré-Univesp, Margareta Wahlström comenta o impacto das mudanças climáticas no aumento de desastres naturais no mundo, inclusive no Brasil, e a necessidade da criação de bancos de dados nacionais para a elaboração de estratégias que visem à diminuição dos prejuízos.

 

Pré-Univesp: Os desastres naturais estão ficando mais frequentes? Se sim, isso tem alguma relação com o aquecimento global?

Margaretha Wahlström: Em primeiro lugar é importante diferenciar perigos naturais e desastres naturais. Os perigos naturais geralmente não podem ser evitados, mas só se transformam em desastres quando causam um impacto negativo em alguma comunidade - vidas e moradias são perdidas; provocam deslocamentos humanos e há prejuízos econômicos e para o desenvolvimento local. Os desastres, no entanto, podem ser prevenidos. Se um terremoto acontece em um deserto inabitado, então é apenas um perigo. Tratar todos esses incidentes como desastres pode passar uma mensagem errada. Por outro lado, se o terremoto acontece no Haiti, como aconteceu no ano passado, com a falta de medidas apropriadas de redução de risco, ele se torna um desastre.

De acordo com o Relatório de Avaliação Global sobre Redução de Riscos de Desastres 2011 da ONU/Eird (Estratégia Internacional para a Redução de Desastres) - intitulado Revelando Riscos, Redefinindo Desenvolvimento -, a maioria das evidências sugere que a mudança climática é responsável por alterar gradualmente a temperatura média do planeta, o nível dos mares e a quantidade das chuvas, com potencial para mudanças ainda mais drásticas se as emissões de carbono não forem limitadas e reduzidas. Hoje, o que nós podemos dizer é que a mudança climática está contribuindo para a ocorrência de perigos mais frequentes, mais severos e imprevisíveis. E, embora a preocupação global com os perigos naturais tenha aumentado recentemente, nossas respostas em face ao aumento dos perigos relacionados ao clima estão muito aquém do necessário, o que, portanto, significa que sim: os desastres também estão acontecendo com maior frequência.

 

Pré-Univesp: Recentemente, uma série de terremotos abalou diferentes pontos do planeta (Haiti, Chile, Japão e Turquia). Quais são os tipos de ameaças ou desastres que estão se tornando mais frequentes? O Brasil também está vulnerável a eles?

Margaretha Wahlström: Como o aquecimento global está aumentando o risco das ameaças climáticas, nós estamos vendo um aumento nas ameaças hidrológicas, como inundações na Ásia, no Pacífico, na Améria Central e do Sul, nos Estados Unidos, na África, no Reino Unido e até no norte da Itália e no Sul da França. Nós também estamos testemunhando mais ameaças climáticas como secas severas no norte da África, Estados Unidos, México, Austrália, China, Índia, Cingapura, nas ilhas do Pacífico, e também ondas de calor e incêndios selvagens, que estão custando caro para a Austrália, a Rússia, os Bálcãs e os Estados Unidos, entre outros lugares.

As chuvas e as enchentes que afetaram o Rio de Janeiro no começo deste ano e resultaram na morte de cerca de 550 pessoas foram descritas como o pior desastre na história do Brasil. Portanto, sim, o Brasil é vulnerável, e por conta disso é um entre muitos países que estão sendo afetados pela mudança nos padrões climáticos. A necessidade de adoção de medidas de Redução do Risco de Desastres (RRD) é um imperativo que não pode ser ignorado.

A presidente Dilma Rousseff, no entanto, está ciente desta vulnerabilidade. Seu discurso no dia 18 de janeiro deste ano, na sequência dos deslizamentos de terra fatais, dizendo que seu governo iria acelerar os esforços para desenvolver um sistema nacional de prevenção de desastres e alertar a população rapidamente, e as ações que se seguiram e que deram suporte a essa declaração, são indicadores significativos de que o assunto está sendo tratado com atenção especial.

 

Pré-Univesp: Neste sentido, qual é a importância de um banco de dados mundial de desastres?

Margaretha Wahlström: Nós aqui da Eird incentivamos que os países comecem a compilar registros de perdas, mapeamento de riscos e rastreamentos financeiros. Atualmente, no entanto, a maioria dos países não está contabilizando sistematicamente seus prejuízos com desastres. Hoje, somente 38 países possuem bancos de dados nacionais de danos causados por desastres e os acompanham sistematicamente. Registros dos prejuízos com os desastres, mapeamento de risco e sistemas de rastreamento financeiro são ferramentas essenciais para o planejamento do desenvolvimento e escolhas de investimento. Qualquer grande decisão de investir recursos públicos em RRD envolve um dilema em relação a outras prioridades nas quais os mesmos recursos poderiam ter sido investidos.

E, além de não contabilizar sistematicamente os custos dos prejuízos recorrentes com desastres, a maioria dos países nem leva em conta o custo dos impactos indiretos em saúde, educação e produtividade. E, compreensivelmente, menos ainda são os que estimam e conhecem as perdas máximas a que estão sujeitos com esses desastres. Os governos não estão preparados para avaliar os dilemas implícitos em suas decisões de investimento público e têm dificuldade em justificar o aumento dos gastos com RRD. Atravessar esse terreno arriscado sem indicadores significa que recursos públicos valiosos estão sendo empregados continuamente para reparação ou reconstrução dos bens danificados e destruídos. Dessa forma, os desastres continuam a surpreender os governos que não possuem medidas de contingência adequadas. E é por isso que os bancos de dados de desastres são tão importantes.

 

Pré-Univesp: O Brasil possui um banco de dados nacional de desastres?

Margaretha Wahlström: Todos os países da América Latina criaram bancos de dados nacionais de desastres, a exceção do Brasil. Um piloto foi lançado há seis anos, no Estado da Paraíba, mas não teve continuidade.

 

Pré-Univesp: E qual é o papel da ciência e dos cientistas na prevenção de desastres?

Margaretha Wahlström: A redução de desastres é possível e factível se as ciências e tecnologias relacionadas aos perigos naturais forem adequadamente aplicadas. Como e quanto a sociedade coloca esse conhecimento em uso efetivo depende primeiramente da vontade política de suas lideranças em todos os níveis. E, apesar de não podermos impedir o acontecimento de um furacão ou de um terremoto, ou ainda a erupção de um vulcão, nós podemos aplicar o conhecimento científico e o know-how técnico que temos atualmente para aumentar a resistência de pontes e casas contra terremotos e furacões, divulgar alertas sobre vulcões e ciclones com antecedência, e organizar uma resposta adequada da comunidade para cada um desses alertas.

Os progressos da ciência e da tecnologia, em face aos perigos naturais, tornou possível a introdução de mudanças significativas à abordagem integrada dos desastres naturais. Hoje existem várias opções para se fazer previsões precisas e emitir alertas de diversos perigos naturais iminentes. Alertas de tempestades violentas e erupções vulcânicas com horas e dias de antecedência salvaram muitas vidas e evitaram perdas significativas. Devido ao progresso no design e na engenharia, estruturas resistentes a terremotos, incluindo arranha-céus e instalações fabris deixaram de ser um sonho e tornaram-se realidade. A ciência precisa ser vista como parte de uma ação contínua, que vai da pesquisa interdisciplinar até a comunicação de resultados a diversos grupos de usuários não especialistas. Neste sentido, cientistas terão de dividir com os tomadores de decisões de políticas públicas a responsabilidade pela avaliação e gerenciamento de riscos com segurança científica.

 

Pré-Univesp: O mundo foi pego de surpresa com o que aconteceu em Fukushima, no Japão, ou aquele incidente também era possível de ser prevenido?

Margaretha Wahlström: Embora Fukushima possa ter parecido uma nova dimensão em desastres, a questão da proteção frente a múltiplas ameaças certamente não é nova. O grande terremoto no leste do Japão e seus impactos sequenciais e colaterais devastantes foram uma importante lembrança sobre como precisamos estar preparados para desastres que ocorrem no coração de sociedades modernas, complexas e interdependentes, e ser capazes de isolar os impactos no caso de uma combinação de perigos naturais e tecnológicos. Uma lição aprendida foi que a segurança e a prevenção de acidentes e os planos e sistemas de emergência precisam levar em conta não somente os perigos naturais individualmente. Se a comunidade internacional quer abordar adequadamente a segurança nuclear, essa mesma comunidade internacional deve promover a adesão e implementação de instrumentos legais relevantes. Outros passos devem incluir um exame técnico detalhado sobre como os Estados entendem a natureza das ameaças potenciais e a adequação das medidas de segurança existentes. Planos de resposta devem ser revisados para lidar com o pior cenário possível e que vão além do que imaginávamos antes. Tais planos devem também ser rigorosamente testados tanto teoricamente como em exercícios práticos.

 

Pré-Univesp: Um dos grandes perigos naturais do Brasil são os deslizamentos de terra. Como eles podem ser evitados?

Margaretha Wahlström: A vulnerabilidade particular do Brasil é uma consequência do rápido crescimento populacional e das tendências da urbanização, isso somado à falta de políticas de desenvolvimento que atentem aos riscos, planejamento do uso do solo, gerenciamento ambiental, e agravado pelos investimentos públicos inadequados na redução de riscos de desastre.

Como já foi dito, enchentes não acontecem instantaneamente e tendem a ser eventos repetitivos, o que significa que as populações em risco podem ser avisadas com antecedência. Não há necessidade de que 500 pessoas morram em eventos como esse, como aconteceu em janeiro passado no Brasil. Enchentes no nordeste da Austrália, na mesma época, tiraram 28 vidas. Isso ilustra a enorme diferença da preparação dos dois países e suas políticas de gerenciamento de enchentes. Durante boa parte de sua história, o Brasil foi abençoado como talvez nenhum outro país de seu tamanho, por ficar praticamente livre de desastres desse tipo. Mas, desde 2000, o Brasil enfrentou 37 enchentes desastrosas. Há, deste modo, uma escolha política - o Brasil agora precisa se planejar para as enchentes e perceber que elas são muito caras. As autoridades públicas precisam priorizar a questão do gerenciamento de enchentes.

Também é verdade que o Brasil sofreu e ainda sofre com sérias secas. Mas graças a políticas em prol dos pobres e redes de segurança social tais como o Bolsa Família, o impacto desses desastres na saúde e no bem-estar da população foi drasticamente reduzido. Esses desastres, no entanto, ainda estão impactando a economia do país e esta é uma questão séria a ser considerada.

Eu estou convencida, no entanto, que dada a enfática declaração da presidente Dilma em janeiro, e com o que nós vimos desde então, mais atenção e recursos serão direcionados para reduzir e gerenciar os riscos de perigos naturais. Sabemos que o governo brasileiro está engajado em um plano para melhorar a prontidão em relação aos desastres que vai incluir mapas de áreas de alto risco, melhor treinamento e melhor coleta de dados das condições meteorológicas. O sistema nacional deverá estar completamente funcional em quatro anos, mas os primeiros resultados já devem ser sentidos no próximo ano.

 

Pré-Univesp: Quais são os grandes desafios para a prevenção de desastres nos próximos anos?

Margaretha Wahlström: A contabilização dos dados para o gerenciamento mais eficiente do risco de desastres precisa ganhar força. Registros dos prejuízos nacionais com os desastres são ferramentas essenciais para os países vulneráveis. Gerenciar riscos de desastre requer a criação de bancos de dados de perdas que armazenem e forneçam informações em todos os aspectos do risco - impactos, frequência, localização, perdas financeiras, populações afetadas. Isso permitiria a elaboração de respostas objetivas e baseadas em evidências.

E, enquanto essa base de evidências é construída, as oportunidades e desafios para todas as partes ainda gira em torno de como fortalecer a integração do RRD e o planejamento de desenvolvimento sustentável. É preciso envolver também as comunidades, governos locais e o setor privado.

A construção da capacidade institucional também é crítica. Evidências mostram que países com plataformas nacionais de redução de riscos de desastre avançam mais nesse sentido. Na realidade, os 81 países que estabeleceram plataformas nacionais para redução de desastres envolvendo parcerias múltiplas relatam sucesso significativo na redução do risco de desastre em vários setores.

O financiamento da RRD ainda está subdesenvolvido e mais trabalho é necessário para rastrear investimentos, incentivar os investimentos em desenvolvimento e apoiar as ações de caráter local, assim como a alocação de recursos. Os investimentos mais eficientes na redução de riscos são aqueles concentrados na parte mais vulnerável do país no que diz respeito a prédios públicos e infraestrutura crítica. Além disso, o planejamento do uso adequado da terra, que prioritariamente procura evitar a vulnerabilidade ao risco, provou gerar uma relação de custo-benefício maior do que medidas mitigadoras como as reformas e melhorias.

 

 

 

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