• pré-Univesp – No. 21 2012 – Engenharias – Maio de 2012
Editorial

Engenharias

Por Carlos Vogt
Engenharias
15/05/2012

 

A disponibilidade de engenheiros em número suficiente e com uma formação de qualidade serve como parâmetro para mensurar a capacidade tecnológica e inovadora de um país, bem como as suas chances de desenvolvimento econômico. Assim, o esforço na formação de engenheiros é algo que deve ser planejado e compatível com as estratégias para o desenvolvimento do próprio país.

No Brasil, a escassez de profissionais nas áreas das engenharias já é uma realidade. E a demanda por engenheiros não é apenas uma dificuldade conjuntural, em função de fatos recentes (como a descoberta do pré-sal) ou de eventos que ocorrerão em breve (como as Olimpíadas de 2016 e a Copa do Mundo em 2014). Segundo estimativas do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), o Brasil já tem um deficit de 20 mil engenheiros por ano.

São dois os principais desafios a serem enfrentados pelo país no que se refere à formação de profissionais nas áreas das engenharias. O primeiro deles consiste na ampliação da formação de qualidade de engenheiros, tanto em áreas tradicionais, como as engenharias civil e mecânica, como em áreas que apresentam demandas crescentes mais recentemente, como nas áreas de energia e ambiental, por exemplo.

Dados comparativos internacionais mostram o quanto estamos atrás na formação de engenheiros. No Brasil, há cerca de 600 mil profissionais da área, o que equivale a seis engenheiros para cada mil trabalhadores. Essa proporção, em países como Estados Unidos e Japão, é de 25, segundo dados da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Enquanto o Brasil forma cerca de 50 mil engenheiros por ano, Rússia, Índia e China formam 190 mil, 220 mil e 650 mil, respectivamente. O número absoluto de estudantes de engenharia formados a cada ano tem crescido (de 18.671, em 1999, para 47.098, em 2008), mas o seu percentual no total de formados ainda é baixo.

No Brasil, do total de estudantes egressos no ensino superior, apenas 5,1% estão nas engenharias, enquanto esta porcentagem chega a 6,1% nos Estados Unidos, 14,2% no México, 14,5% na Espanha, 19,4% no Japão, 25% na Coreia do Sul e 35,6% na China (OCDE, 2007). O dado mais alarmante, no entanto, não está no fato de a porcentagem de egressos nas engenharias ser baixo, e sim no fato de ser decrescente. Em 2000, a porcentagem de egressos no ensino superior no Brasil que estava nas engenharias era de 5,6%.

Um dos problemas enfrentados na formação de engenheiros no Brasil é a alta taxa de evasão nos cursos da área que, em alguns casos, chega a 60%. O problema da evasão é agravado pela falta de interesse dos jovens pela profissão: das 302 mil vagas oferecidas pelas escolas brasileiras de engenharia, apenas 120 mil estão preenchidas.

O desinteresse pela profissão decorre, em parte, da falta de preparo dos vestibulandos, principalmente nas disciplinas de matemática e física. Estudo recente realizado pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, com estudantes de 15 a 17 anos do município de São Paulo, mostrou que as duas disciplinas são as que os jovens menos gostam. Daqueles que pretendiam seguir estudando após a conclusão do ensino médio, quando perguntados sobre qual carreira gostariam de seguir, 22,2% disseram se interessar em ser engenheiro(a). No entanto, as matérias de ciências de uma forma geral foram apontadas como principais empecilhos para a escolha da carreira científica pelos jovens: 39% dos jovens consideram as matérias de ciências muito difíceis (39%) e 35% disseram que as matérias de ciências são muito chatas.

O segundo desafio a ser enfrentado na formação de engenheiros para o Brasil, além do aumento do número de vagas no ensino superior de qualidade, está na criação de condições de mercado para que esses profissionais sejam empregados em atividades que condizem com a sua formação. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), apenas 35% dos engenheiros formados estão trabalhando na área.

Os profissionais graduados mais demandados por multinacionais são os engenheiros, mas estudos indicam que a falta de mão de obra qualificada para a ciência no setor produtivo do Brasil é um dos principais fatores que levam tais empresas a montar centros de pesquisa em países concorrentes, como China e Índia. 

Apesar de o número de doutores formados no Brasil ser crescente (cerca de 12 mil doutores formados por ano no país) e a distribuição entre áreas ser semelhante à de países como os Estados Unidos (53% de doutores em ciências e em engenharias e 47% em outras áreas), a quantidade de doutores por mil habitantes continua pequena. O Brasil tem menos de dois doutores por mil habitantes, contra 15 na Alemanha e 23 na Suíça, por exemplo. Nos Estados Unidos, são 36% dos graduados em ciências e engenharia trabalhando em pesquisa e desenvolvimento (P&D), conforme dados da National Science Foundation (Indicadores de Ciência e Engenharia, 2010).

Algumas iniciativas têm sido desenvolvidas no sentido de incentivar o interesse dos estudantes do ensino médio pelas engenharias, diminuir a evasão do curso nas universidades e melhorar a formação de futuros profissionais na área. Exemplo disso é o  CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que deverá oferecer bolsas de iniciação científica a estudantes de graduação de engenharia, alunos do ensino médio (iniciação científica júnior) e a professores orientadores através do Programa Pró-Engenharia.

No Estado de São Paulo, muito tem sido feito no sentido da formação de recursos humanos para o desenvolvimento tecnológico. Em relação à formação profissionalizante em áreas técnicas no ensino médio e superior, o Estado tem recebido destaque no cenário nacional com a ampliação do Centro Paula Souza. Mais recentemente, com o encaminhamento do projeto de lei para a criação da Fundação Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo, o Estado deu mais um passo à frente. Com a sua institucionalização, a Univesp ganhará autonomia didático-científica, podendo oferecer cursos próprios, além da continuidade dos cursos em parceria com as universidades públicas paulistas. Dentro dessa parceria, a Univesp deverá ofertar cursos de graduação em Engenharia da Computação e em Engenharia de Produção, além do curso de especialização em Formação de Professores de Engenharia.

Considerando a importância da formação de qualidade de engenheiros para o futuro do país, esta edição da Pré-Univesp busca trazer elementos, por meio de reportagens, artigos, entrevista e infográficos, para o entendimento do cenário nacional para as engenharias, bem como da formação das disciplinas e dos saberes que constituem essa área tão fértil e promissora do conhecimento.

Boa leitura!

 

 

 

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