• pré-Univesp – No. 4 2010 – Leitura – Setembro de 2010
Reportagens

Leitura na era digital

Como os novos modos de ler na atualidade afetam os hábitos de leitura no Brasil e o público jovem

Por Flávia Gouveia
Leitura na era digital
15/09/2010


A primeira das quatorze definições do dicionário Houaiss da língua portuguesa para o verbete “ler” é bastante objetiva: ‘percorrer com a vista um texto, interpretando-o por uma relação estabelecida entre as sequências dos sinais gráficos escritos e os sinais linguísticos próprios de uma língua natural’. Assim definido, esse processo elementar de comunicação humana parece imutável. Mas, do ponto de vista dos desenvolvimentos (e dos entraves) relacionados à vida em sociedade, à economia e à tecnologia, o ato de ler sofre variações importantes de acordo com as pessoas, localidades e tempos considerados. “No Brasil, o processo de letramento sistematizado atrasou pelo menos um século. Hoje a situação da leitura no país é muito melhor, mas essa defasagem ainda se faz sentir”, afirma a professora de Sociologia da Cultura e da Literatura da Universidade Federal de São Carlos, Tânia Pellegrini.

Assim, o perfil do “leitor médio” no Brasil difere daqueles observados em outros países, da mesma forma que os hábitos de leitura de um brasileiro diferem dos de outro leitor de diferente classe social ou faixa etária, também nascido no Brasil. De acordo com a pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil, lançada em maio de 2008 e coordenada pelo Observatório do Livro e da Leitura (OLL), a maior parcela de brasileiros não-leitores (que não leram um livro nos três meses anteriores à pesquisa) está entre os adultos de 30 a 39 anos (15%) e de 40 a 49 (15%). A pesquisa constatou também que o número de não-leitores diminui quanto maior é a renda familiar e mais alta é a classe social. Quase não se encontram não-leitores na classe A, e há apenas 1% de não-leitores quando a renda familiar é de mais de 10 salários mínimos. Mas, no que se refere à dimensão tecnológica, houve uma mudança importante observável através do tempo.

Texto e hipertexto

A leitura na atualidade também não é como no passado, quando não se imaginava que um dia leríamos na tela de um computador, por onde se acessa um labirinto cibernético de textos e hipertextos, ou de um artefato próprio para leitura de livros digitais. Para o linguista, poeta e professor titular de semântica argumentativa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Carlos Vogt, há hoje uma dispersão da leitura causada pelas novas tecnologias e a forma eletrônica de tratamento do texto. “No meio eletrônico, de textos permeados por hipertextos, o leitor passa a ter diante de si várias ‘portas’ que levam a outros textos. A progressão linear da leitura tradicional dá lugar a uma miríade de mosaicos de fontes novas e inesperadas de informação”, comenta.

A professora Tânia Pellegrini lembra que já presenciamos uma grande mudança nos modos de ler no passado, quando foi inventada a imprensa. “Se na Idade Média tínhamos os imensos códices (manuscritos gravados em madeira), o advento da imprensa tornou o livro portátil. E bem antes disso, no Egito antigo, inventou-se o papel, suporte até hoje insuperável. Com os computadores, criou-se um suporte técnico antes inimaginável”, diz.

Vogt e Pellegrini concordam que o presente seja de revelação de uma transformação crucial e de certo modo arriscada nos modos de ler. “Ler em uma tela é muito diferente de ler em um livro, muitíssimo diferente de ler pergaminhos ou papiros. A leitura na tela tende a ser mais rápida, apressada e fragmentada, pois a organização dos textos obedece às possibilidades que o suporte oferece: procurar relações com outros textos, imagens, sons”, afirma a professora. Carlos Vogt aponta dois riscos que aumentam com a leitura de textos na internet: a limitação da imaginação e a dispersão da concentração. Para o linguista, “a leitura no computador leva ao esmaecimento da tensão entre a horizontalidade dispersiva e a verticalidade da semântica que leva à concentração, invertendo assim a ‘planitude’ do texto”.


Mercado tecnológico

Da perspectiva do mercado, a digitalização de livros e a venda de livros digitais têm crescido constantemente, ganhando adeptos que parecem não se importar com os possíveis riscos da leitura digital, mas sim com seus atrativos e funcionalidades, como a possibilidade de “aproximar” o texto e a imagem por meio de recursos de zoom, entre tantas outras. O livro digital também não é um produto caro, se comparado ao livro em papel. Muitas vezes é até mais barato. Mas sua leitura é mais apropriada se realizada em aparelhos desenvolvidos para essa finalidade - os chamados e-readers - e esses sim são bastante caros, comparativamente ao preço dos livros tradicionais. Ainda pouco conhecidos no Brasil, os aparelhos para leitura do livro digital conferem à palavra escrita oportunidades de acesso inéditas, permitindo ao leitor carregar na palma da mão uma biblioteca inteira.

Mas as opiniões sobre o futuro do livro digital não convergem para sua supremacia. Pelo menos não no curto prazo. Para Vitor Tavares, presidente da Associação Nacional de Livrarias, o livro digital é mais uma alternativa para quem gosta de ler, e pode incentivar a criação de novos leitores. “Mas não vai substituir o livro em papel, que ainda é bem mais acessível e democrático”, afirma. Pellegrini também não aposta na superação do livro em papel: “o novo suporte digital é volátil, evanescente, fungível e talvez não possa durar tanto. Mas isso ainda não se sabe”.

A revista Panorama Editorial, em sua edição de fevereiro e março de 2010, fez um levantamento dos aparelhos e-readers e compilou dezoito tipos (marcas) diferentes (com informações sobre preços). O mais conhecido é o Kindle, vendido na livraria digital Amazon e exclusivo leitor de seus livros digitais. Entre os mais cobiçados está o i-Pad, da Apple, que agrega múltiplas funções (como operações de notebook e telefone), além da leitura eletrônica.

Existe ainda outra forma de associação entre livros e tecnologia: os totens de produção instantânea de livros em papel, que já existem em livrarias na Europa. “O cliente escolhe o livro que vai comprar, faz seu pedido numa máquina, e, enquanto toma um café, seu livro é impresso e encadernado. É o fim dos estoques”, diz Tavares. Mas essa alternativa ainda parece distante do Brasil, onde a maioria das livrarias, embora tenha diversificado seus atrativos com a venda de outros produtos e serviços, afora os livros, ainda sequer oferece vendas pela internet (56%, segundo pesquisa da ANL).

Jovens leitores

No que diz respeito ao público leitor, Pellegrini e Tavares compartilham a opinião de que os leitores dos livros digitais serão, em princípio, majoritariamente os jovens, por sua familiaridade com as novas tecnologias. Mas há que se ressaltar uma mudança no hábito de leitura dos jovens brasileiros que não tem relação direta com a digitalização de textos ou conteúdos de livros. Na atualidade, muitos jovens percorrem com empolgação volumes grandes, com quatrocentas, quinhentas páginas, quando se trata de séries de aventuras surrealistas, com personagens fabulosos em lugares fantásticos. Os exemplos mais marcantes são Harry Potter e Crepúsculo, que se tornaram também filmes de grande sucesso.

Fenômenos como esses não eram comuns até pouco tempo atrás. A boa adesão do jovem à prática da leitura já é observada na pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, segundo a qual crianças e jovens de até vinte e quatro anos leem mais que os leitores mais velhos, conforme ilustra o gráfico abaixo (para detalhes sobre gêneros lidos e faixa etária, ver infográfico nesta edição).

Número de livros lidos por ano por faixa etária, no Brasil


A relevância do público jovem também ficou evidente na 21ª Bienal do Livro de São Paulo, que aconteceu na capital entre os dias 12 e 22 de agosto. Segundo a pesquisa do Datafolha, contratada pelos organizadores da feira, grande parte do público era formada por jovens (33% com até 25 anos; 33% de 26 a 40 anos; 25% de 41 a 55 anos, e 8% de pessoas com 56 ou mais anos).

Vitor Tavares chama de “geração Harry Potter” os jovens que leem preferencialmente livros com temas de bruxarias e vampiros, que aguçam seu imaginário. Mas a leitura das obras literárias clássicas ainda fica por conta da pressão dos vestibulares, que nem sempre é acompanhada dos efeitos esperados sobre a compreensão de textos em geral ou o estímulo ao ‘prazer’ pela descoberta de seus possíveis significados por parte do jovem leitor (ver artigo de Vera Bastazin nesta revista). No tocante às preferências de leitura de forma geral, sem considerar alguma segmentação etária, o destaque fica com os livros de autoajuda (ver box a seguir).

 


Livros de autoajuda entre os mais vendidos

O pesquisador Arnaldo Cortina, da Faculdade de Ciências e Letras, da Unesp de Araraquara, tentou estabelecer um perfil do leitor brasileiro a partir de um levantamento nas listas de livros mais vendidos do Jornal do Brasil e do jornal Leia entre 1966 e 2004. “O que pude constatar é que os livros de autoajuda foram ganhando força a partir dos anos 1980”, afirma. O crescimento desse tipo de literatura, segundo ele, faz com que o “estilo de autoajuda” se dissemine em diversos campos de leitura, como a literatura médica, a psicológica, a nutricional, a de administração de negócios etc. “Chegamos a um ponto em que não conseguimos mais distinguir o que é ou o que não é aquilo que chamávamos inicialmente de ‘autoajuda’, tal como ela apareceu nos anos 1960 nos EUA, quando se voltava para a questão do ‘mentalismo’, do ‘pensamento positivo’ etc”. Arnaldo encaixa na categoria de autoajuda livros como O alquimista e Brida, ambos de Paulo Coelho, Amar pode dar certo, de Roberto Shinyashiki, e O sucesso não ocorre por acaso, de Lair Ribeiro. “Essa foi a grande mudança no panorama da leitura de massa contemporânea”, diz. Para ele a autoajuda cresce porque as pessoas perderam as certezas. As grandes crenças religiosas e políticas entram em crise, e o homem contemporâneo precisa se apegar a algo que substitua isso. “Por essa razão temos o esoterismo, a afirmação de valores de determinados grupos sociais, o individualismo, a aceleração do consumo nessa atual fase do capitalismo”, finaliza.



Motivos e motivações

O leitor no Brasil lê, em média, menos de dois livros por ano (1,3), sem contar os livros didáticos usados nas escolas, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Bem menos que na Argentina (5), no Chile (3) e na Colômbia (2,5). E a explicação para o ainda baixo índice de leitura passa por questões tanto socioculturais quanto econômicas.

“Ainda hoje temos um índice de analfabetismo não desprezível [no Brasil], sem mencionar os chamados analfabetos funcionais, que leem, mas não sabem explicar o que leram”, diz Tânia Pellegrini. Outra questão colocada pela professora é a do preço dos livros. “O livro no Brasil sempre foi muito caro  em relação aos salários”, diz. Para Tavares, no entanto, o problema de hábito de leitura no país não é justificado pelo preço dos livros, pois há alternativas à compra, como bibliotecas, feiras, livrarias, e mesmo a internet, onde se pode ler de graça. “É a família a grande incentivadora do hábito”, comenta.

Para os leitores que desejam ler e veem o preço dos livros como um obstáculo, vale lembrar que muitos livros estão disponíveis gratuitamente (e legalmente) na internet. Sites de bibliotecas digitais, como o  Domínio Público e o Brasiliana USP, oferecem milhares de obras para download gratuito, de importantes autores, como Machado de Assis, Eça de Queiroz, Lima Barreto, José de Alencar, Fernando Pessoa, Shakespeare, Dante Alighieri e muitos outros (box a seguir).


O Portal Domínio Público, lançado em 2004 pelo Ministério da Educação (MEC), já conta com um acervo de mais de 171 mil obras. Até agosto de 2010 já foram baixadas 31,3 milhões de cópias, entre textos, imagens, sons e vídeos. Já a Brasiliana, uma iniciativa da Universidade de São Paulo, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e com o Ministério da Cultura (MinC), já disponibiliza de forma online parte do acervo de 17  mil títulos doado pelo bibliófilo José Mindlin em 2006. Entre os dias 13 e 15 de outubro, durante o Seminário Mindlin 2010 – O Futuro das Bibliotecas, será lançada a versão 2.0 da Brasiliana Digital.



Saiba mais:

 

Painel pré-Univesp Cadastre-se

Cadastre-se e crie seu próprio arquivo de textos

Esqueceu sua senha?
Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo - Rua Bela Cintra, 847 - 8º andar - Consolação - CEP 01415-903 - São Paulo - SP - Tel.: (11) 3218-5694