• pré-Univesp – No. 6 2010 – Genética (10 anos do Projeto Genoma) – Novembro de 2010
Entrevistas

Mayana Zatz

A pesquisadora fala sobre o futuro das carreiras na área de genética e diz que “agora vamos começar a colher os frutos” do Projeto Genoma.

Por Cristina Caldas
Mayana Zatz
15/11/2010


Mayana Zatz é bióloga molecular e geneticista, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e  coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP. Coordena também o projeto Instituto Nacional de células-tronco em doenças genéticas.  Pesquisadora renomada em genética humana, com contribuições principalmente no campo de doenças neuromusculares e de células-tronco, a pesquisadora falou sobre as diferentes possibilidades de atuação profissional na área de genética e sobre os rumos e aplicações das pesquisas em genética humana.  

Pré-Univesp: Como a Senhora se tornou uma geneticista?

Mayana Zatz
: No meu caso foi realmente uma paixão. Ainda durante o ensino médio, comecei a me interessar sobre como eram transmitidas as características hereditárias e, especificamente, pela área de genética humana, genética médica. Um dos grandes motivadores foi o livro do professor Oswaldo Frota-Pessoa, que acabou se tornando meu orientador. Já entrei na faculdade dirigida, sabendo que queria estudar genética humana. No primeiro ano do curso de Biologia fui procurar o Frota-Pessoa e comecei a fazer iniciação científica com ele.


Pré-Univesp: Quais são as diferentes áreas de atuação de uma pessoa interessada por genética?

Mayana Zatz:
Há uma abrangência enorme. Inicialmente, é preciso definir por que área da genética a pessoa se interessa: humana, vegetal, animal, de microrganismos. Dentro de cada área há diversas subespecialidades. Existe a opção de ficar na área acadêmica, fazendo pesquisa, ou na área aplicada. Há inúmeras aplicações da genética, como na biotecnologia, na genética animal e vegetal. Cada vez veremos mais aplicações da genética humana. A farmacogenômica - resposta individual a drogas – é uma área que vai explodir. A tendência é abrir cada vez mais postos de empregos para geneticistas em empresas.


Pré-Univesp: É o caso do aconselhamento genético que vocês oferecem no Centro de Estudos do Genoma Humano a famílias acometidas com doenças genéticas?

Mayana Zatz:
Sim, uma profissão que terá uma demanda enorme. Daqui a cinco anos será possível sequenciar o genoma de uma pessoa por mil dólares. Com isso, haverá uma grande quantidade de informação e muito pouco conhecimento. Vamos precisar de geneticistas para explicar para a população o que significa aquela mutação, qual é o impacto que pode ter na vida dela, se é preocupante ou não, e isso vai abrir um campo imenso nessa área de aconselhamento genético.


Pré-Univesp: É necessária formação médica para atuar no aconselhamento genético?

Mayana Zatz:
Não. Você pode fazer qualquer carreira básica nas áreas biológicas, mas não necessariamente, e depois se especializar. Nos Estados Unidos, o estudante faz uma faculdade e depois um mestrado em aconselhamento genético. No Brasil, a profissão de aconselhamento genético ainda não está regulamentada.


Pré-Univesp: O que os cientistas aprenderam com o Projeto Genoma Humano? O conhecimento científico gerado até agora teve impacto em práticas de saúde? Quais?

Mayana Zatz:
Ultimamente tenho visto opiniões pessimistas a esse respeito. Mas quem trabalha com genoma humano sabia que o sequenciamento era o início de tudo. Agora vamos começar a colher os frutos. Dizer que não tem aplicação é uma inverdade. Primeiro, aumentou-se muito a quantidade de testes genéticos. Hoje conseguimos diagnosticar um número cada vez maior de doenças com os testes genéticos. Uma vez diagnosticada, pode-se identificar, quem tem risco de desenvolver a doença naquela família, e a pessoa pode planejar sua prole. Segundo, a partir dos estudos dos genes, entende-se muito mais como é que eles funcionam em situações normais e por que deixam de funcionar em casos de doenças genéticas, o que está permitindo cada vez mais atuarmos nas doenças.


Pré-Univesp: A senhora poderia dar exemplos de pesquisas realizadas no Centro de Estudos do Genoma Humano que vêm ajudando, ou são promissoras, no tratamento de doenças genéticas?

Mayana Zatz:
Existe hoje todo um campo novo em que estamos atuando no Centro de Estudos do Genoma Humano, que é o de aliar estudos do genoma a pesquisas com células-tronco. Aqui no Centro trabalhamos com células-tronco em duas vias: tentando substituir células e tecidos defeituosos e usando as células-tronco para estudar os genes. Em relação à primeira via, estamos avaliando qual é a melhor fonte de células-tronco para regenerar células musculares e ósseas. As pesquisas pré-clínicas, em que injetamos células-tronco humanas em modelos animais com distrofia, têm mostrado resultados muito animadores. Por exemplo, observamos que células-tronco retiradas de tecido adiposo são melhores que as de cordão umbilical para formar músculo. E que injeções sistêmicas, através da circulação, são mais eficientes do que injeções diretas no músculo. Em relação à segunda via, coletamos células-tronco de pacientes com doenças genéticas e derivamos linhagens celulares, o que nos permite estudar o gene diretamente na linhagem. Não precisamos usar o ser humano como cobaia. Podemos testar diferentes estratégias nas células-tronco daquele paciente para tentar corrigir o defeito genético, testar novas drogas e ver o efeito diretamente na célula. Depois partiremos para uma segunda fase, de avaliar o efeito no organismo. Teremos estudos muito mais precisos da eficiência de drogas. Estamos muito interessados em comparar pacientes que têm a mesma mutação e diferentes quadros clínicos, o que só pode ser feito com a conjunção células-tronco e estudos do genoma. Observamos diferentes manifestações da doença na mesma família: uma pessoa muito acometida e um parente com a mesma mutação e quadro muito leve, às vezes até assintomático. Conseguir linhagens celulares de pacientes discordantes vai ser extremamente importante para entender por que um gene se expressa de um jeito em uma linhagem e na outra não.


Pré-Univesp: E quais doenças vocês estão pesquisando?

Mayana Zatz:
Além das distrofias musculares, estudamos também as centenas de doenças neuromusculares doenças ósseas, regeneração óssea, doenças crâniofaciais, lábio leporino, doenças de desenvolvimento e de comportamento, autismo, retardo mental, surdez hereditária, câncer e doença de Parkinson. A colega Maria Rita Passos-Bueno publicou um trabalho recentemente mostrando como, a partir de células-tronco, foi possível desvendar alguns segredos genômicos de pacientes que têm lábio leporino.

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